domingo, 21 de fevereiro de 2021

Ai, as Visinhas

Ai! as Vizinhas!


Malvadas! bruxinhas disfarçadas de velhotas e solteironas que nos espiam deliberadamente a vida, sem pedir licença, como se tudo o que fazem fosse certo, como se o que fazem, pensa e dizem fosse um segredo.
Vizinhas. Desgraçadas. Que nos seguem os passos com aqueles olhos infalíveis. Aqueles ouvidos tísicos e aquelas línguas afiadas como punhais e com uma intuição quase que inimaginável e numa grande parte das vezes infalível...
 

São espertas, manhosas, Aparentam nada saber, mas são mentirosas, porque de tudo sabem, de tudo conhecem, quase que de tudo arranjam...
Não há situação que lhes passe ao lado. E o que não lhes tem o sentido todo, elas inventam, e comentam, desfiam os assuntos de quem finge não notá-las, como os novelos de lã largados à espera que voltem para o sofá velho da sala que permanece de janela e porta aberta, para que nem quando fingem ver a novela, lhes escape o que fazem os alvos das suas cusquices.
Solitárias, vivem para a calhandrice com avidez maior que para o tricot, mas camuflam-se de santas do pau oco, para que quando as olhemos, parecerem-nos e serem, quer queiramos quer não, apenas pessoas que dão vida à vida que a rua não têm para lá da incessante passagem das viaturas de quem passa sem nada ver, sem nada sentir...

Elas! aquelas sabichonas disfarçadas, que tanto tem de amáveis e prestativas, como de coscuvilheiras e velhacas; são as tais de quem fugimos,com rabo entre as pernas e olhares discretamente comprometidos, mas que até sentimos falta quando a vida as leva. Faz com que pensemos que um dia seremos uma alma mais ou menos como aquela, num sofá velho com um novelo de lã e uma peça de tricot que nunca terminamos, e com a capacidade, se quisermos, de desfiar a vida dos vizinhos que se escondem para que não vejamos as coisas que fazem, mas que no fundo, porque já fomos da sua idade, sabemos que fazem.


As vizinhas… as bruxas disfarçadas que nos tiram do sério e que são um caso sério...

                                         

 

Sem comentários:

Publicar um comentário

Ao meu lado existe o vosso lado, e aqui é o vosso espaço. Desejo imenso ler-vos !