segunda-feira, 4 de maio de 2020

Sono


Esta noite, mais uma vez, não vieste...
Deixaste-me ao sabor dos meus sonhos, dos meus pensamentos, e até dos meus medos.
Não me quiseste nem me procuraste, e eu de frio ou desamparo, estremeci.
Virei-me na cama vezes sem conta, contei as batidas do morador do meu peito, vi horas passarem como o vento lá fora, até perder-me no chirriar dos passarinhos que acordam quando chega o amanhecer.
Olhei para os lados desta cama e da minha vida, sem saber qual seria o lado certo, e lutei para fechar os olhos e, quem sabe, como por magia ou sorte vindoura, sentir-te chegares, suave, mas real - qual porto seguro para que pudesse adormecer,  nessa espera feita para recomeçar.


Porem, continuei tão só ao fim da noite como no começo, e contei mais uma vez os minutos, até perder a esperança  na tua chegada,
Talvez porque senti que já não vinhas, nem mesmo com o nascer da aurora.
Tu não voltarias como noutras noites, não me tocarias nem me embalarias.
Não me apagarias mais os pensamentos, nem me trarias outros sonhos. Tu não me combaterias nem me afastarias os medos, os meus fantasmas e os meus delírios... não farias, tal como não fizeste, nada por mim, esta noite.

E eu mais perdida soube que irei,,, passo a passo pela casa, ao encontro de um novo dia, que chegou, ainda cansado, com restos de um ontem que sei que não voltará.
Espero apenas, entre uma e outra chávena de café, que logo à noite voltes, e me leves -- para onde apenas vão os que sonham, como eu.

Porque: Durante a noite, os sós, ficam sempre mais sós.

quarta-feira, 11 de março de 2020

Destino


Ilustração, por Patrícia Magalhães
Destino


Deitei os medos fora, e agora estou só.
Apaguei os velhos poemas, as rimas sem terminação,
as cartas escritas que cá estavam por enviar.

Não há fins sem começo, e nem canções sem melodia;
e eu, não quero terminar a canção sem começar por ser feliz.

O amor que existia já não é saudade.
As fotos são hoje molduras vazias para que o tempo as encha,
E o meu único poema corre-me no sangue - o mesmo que misturo com a vontade de cantar mais uma vez,
e outra vez, tantas vezes quantas bate o coração.

Bato a rebate no fundo do que sou.
Cada dia mais mulher, cada noite mais certeza.
Não tenho o destino escrito nas estrelas mas não desisto;
é que é meu o caminho que eu piso, e pertencem-me os sonhos que eu moldo,
como o barro de que sou feita,
e como a esperança que me diz que não
é hoje nem depois
o dia certo p'ra desistir.

*


quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Foram Sempre Mais de Mil

Ilustração por Patrícia Magalhães
 Foram Sempre Mais de mil 





Foram mais de mil as coisas que não disse,
que engoli, calei e até fiz por esquecer, embora sem sucesso.
As palavras que guardei, hoje são o alimento dos cadernos imensos,
repletos de sentimentos traduzidos em poemas
que vez por vez me saem num jeito simples de desabafo.
É que havia tanto a dizer, e a pensar, e a compreender.
Tanto, que não bastariam as noites, e os dias,
e o espaço que a vida deixa para sentir ao invés de apenas fazer.

Foram mais de mil os livros nas estantes que ficaram por ler,
e tantos sublinhados por fazer, e tantas passagens por escrever na palma da mão,
como quem tenta escrever na alma para nunca mais esquecer,
ou para ter com o que sonhar, sempre que o coração precisar de aconchego.
Mas tudo passa, e só os livros ficam - são mais de mil,
e entre eles estão os livros das minhas palavras, do meu imenso que ficou por contar – um dia,
quando houver tempo de sentir e acontecer…

Foram mais de mil as noites que ficaram por cumprir,
é que o tempo não se atrasa, acho até que o seu relógio tem uma corda infinda,
e a pontualidade fica sem pudor,
marcada nas mãos pousadas sobre os cadernos cheios de poemas,
e sobre as estantes repletas de livros, para que se saiba, sem esquecer,
 que o tempo também passou por cá.

Foram mais de mil os desejos que se foram perdendo,
espalhando-se pelo chão e pelas paredes desta casa.
Lá de quando em vez,  avista-se um desejo num canto de um móvel,
ou numa página de um livro,
que até lhe dobrei a ponta, para que jamais me caia no esquecimento
toda aquela vontade de cumprir sonhos como quem cumpre os dias...

Foram mais de mil os dias que passei aqui,
escrevi e apaguei palavras, calei a voz do silêncio como pude,
e como pude, teci um manto de motivos que me façam escrever por toda a vida,
sobre as mais de mil coisas que por pudor ou incerteza fui deixando por escrever…

aqui, neste barco de sentimentos e sentidos,
remado apenas pelo coração,
que entre mais de mil corações, é tão somente o meu,.

                    *                   

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Sonhar Também é um Fado -- E, Há fado neste post

Já tem nome e é o fruto de dois anos de trabalho e muitos mais anos de expetativa. Depois de alguns anos ligada à música ligeira, cantando e interpretando nomes como Sara Tavares e Mafalda veiga, whitney Houston ou Celin dion, o fado chega à minha vida como por acaso, há aproximadamente 5 anos à trás no restaurante adega do David, de que bastantes vezes já ouviram falar e leram por Cá acerca das bonitas noites que lá se concretizam mais ou menos uma vez por mês. Agora, depois de tanto tempo, chego à meta final de um projeto muito complexo e trabalhoso, porém muito gratificante, porque como fadista aprendi imensas coisas, melhorei outras e passei a valorizar pequenas coisas que eu não conseguia perceber, na minha voz, no meu sentir e no ouvir, não só o meu trabalho, como o fado no seu todo. Chama-se Sonhar Também é um Fado, e será o meu primeiro álbum, com 14 temas, interpretações de poemas marcantes que me tem acompanhado ao longo destes cinco anos de aprendizagem, crescimento e vontade. GRAVADO NOS ESTÚDIOS DA Editora Toca a Gravar, este cd tem como finalidade ser um marco na história que ao longo de muitos anos tenho vivido na música, e é também um objetivo alcançado não só pela questão sentimental, que é sem sombra de dúvida a mais importante, uma vez que o que me move na música e no fado é o amor , mas também por uma questão de mostrar ao mundo que cantar é o que eu gosto, quero e sei fazer, e há espaço para todos cantarmos, dançarmos, escrevermos, ou qualquer outra coisa que queiramos fazer, e sermos felizes independentemente da condição que nos diferencia uns dos outros. Este cd chamar-se-á Sonhar Também é um Fado, porque embora seja eu real, há de ser sempre cheio de sonhos este coração que me habita no peito, e que me faz cantar e amar o que eu canto! Produzido pelo guitarrista Carlos Soares da Silva, que com a sua viola dá corpo a este trabalho, e que ao longo deste tempo muito me tem ensinado, e acompanhado por João Núncio, na guitarra Portuguesa, os fados ganham toda uma intensidade que em breve poderão ouvir na íntegra; na edição deste cd está João Matheus, editor e dono da editora Toca a Gravar, que desde o Primeiro instante abraçou o projeto e sabe e sente que este cd não será apenas mais um álbum a chegar ao público; esperando que ele tenha razão convido-vos a ficarem com um tema demonstração deste cd. Esta não é a versão final, porém espero que gostem. Fiquem com o poema de Florbela Espanca – Amar, e a minha interpretação.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Fogo

Uma dedicatória, por Patrícia Magalhães e Joana Rita, a todos os que sofrem, e a todos os que lutam por, e contra esta devastação...


Ilustração © by Patrícia Magalhães
Fogo



Clique aqui para ler descrição da Ilustração


 Arde-me este fogo cá dentro.
Entra-me pelos olhos, pelos ouvidos, posso senti-lo na pele,
na alma, queimando e dilacerando tudo em mim
e nos que o combatem, nos que o enfrentam, como eu não faço,
porque não presto, porque não sirvo.

Mas... arde-me este fogo cá dentro, e enlouquece-me, enerva-me,
magoa-me, e faz-me chorar pelos que o combatem, sentem e pelos que o odeiam
por todos os motivos, ainda mais que eu.

Arde-me este fogo cá dentro, e por fora,
deixando negros os meus sonhos de um lugar melhor, de um mundo melhor,
de um fim de interesses que, sei e pressinto, que  não acaba mais… nunca mais.

Arde-me este fogo cá dentro, e sufoca-me.
Não tenho voz que chegue e sirva para gritar que é preciso pará-lo,
que a terra e o céu estão negros com o fumo que abunda,
e com a tristeza e o medo de quem chora
por tudo o que perdeu…

Arde-me este fogo cá dentro, e entristece-me.
Porque quando não houver mais nada somos só pó e cinza,
como o pó de uma terra queimada, como a cinza do que já existiu mas o fogo levou, o vento soprou
e o manto negro cobriu…

Arde-me este fogo cá dentro, e queima-me também as esperanças.
Sobra-me apenas a saudade do que era verde e agora é só lembrança,
e a certeza de que ficou nas mãos de quem luta corajosamente,
a sorte de quem espera encontrar depois do fogo,
o que sobrou de toda uma vida.

Um começo do recomeço, depois de tanta perda,
depois de tamanho sufoco,
que nem uma chuva de esperança será capaz de apagar…


                    *                  

domingo, 29 de julho de 2018

O Tempo do Nosso Tempo



O tempo - que se nos esgota,
que se nos corre por entre os dedos, e por nada se aloja nas palmas das mãos, no colo, no enlaçar dos braços...

O tempo - que nunca nos sobra,
que tantas vezes nos falta, que nos leva a perguntar: quando foi?

O tempo - que nos escreve nas linhas de expressão a nossa história,
e que ao espelho nos mostra o valor do que fizemos, e a importância do que deixamos para depois.

O tempo -  que se engrandece perante os nossos olhos, mas que é tão pequeno no fim de contas. Que passa tão rápido e tão de fininho por nós, que nos finta e engana sem dificuldade,
e que nos faz sentir no começo de tudo um aperto,
e no fim de tudo tanta saudade.

É esse, o tempo, que sendo infinito é findável,
Que sendo indefinível é insofismável, que sendo impercetível é marcante, que sendo meramente controlado, é naturalmente incontornável.

É o tempo...
uma imensidão de poder querer, aprender, fazer e sentir,
sempre mais.

Ilustração © by Patrícia Magalhães


Nota: Se faz sentido, é tudo uma questão de tempo; e se não faz sentido, é tudo uma questão de sentir.