quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Foram Sempre Mais de Mil

Ilustração por Patrícia Magalhães
 Foram Sempre Mais de mil 





Foram mais de mil as coisas que não disse,
que engoli, calei e até fiz por esquecer, embora sem sucesso.
As palavras que guardei, hoje são o alimento dos cadernos imensos,
repletos de sentimentos traduzidos em poemas
que vez por vez me saem num jeito simples de desabafo.
É que havia tanto a dizer, e a pensar, e a compreender.
Tanto, que não bastariam as noites, e os dias,
e o espaço que a vida deixa para sentir ao invés de apenas fazer.

Foram mais de mil os livros nas estantes que ficaram por ler,
e tantos sublinhados por fazer, e tantas passagens por escrever na palma da mão,
como quem tenta escrever na alma para nunca mais esquecer,
ou para ter com o que sonhar, sempre que o coração precisar de aconchego.
Mas tudo passa, e só os livros ficam - são mais de mil,
e entre eles estão os livros das minhas palavras, do meu imenso que ficou por contar – um dia,
quando houver tempo de sentir e acontecer…

Foram mais de mil as noites que ficaram por cumprir,
é que o tempo não se atrasa, acho até que o seu relógio tem uma corda infinda,
e a pontualidade fica sem pudor,
marcada nas mãos pousadas sobre os cadernos cheios de poemas,
e sobre as estantes repletas de livros, para que se saiba, sem esquecer,
 que o tempo também passou por cá.

Foram mais de mil os desejos que se foram perdendo,
espalhando-se pelo chão e pelas paredes desta casa.
Lá de quando em vez,  avista-se um desejo num canto de um móvel,
ou numa página de um livro,
que até lhe dobrei a ponta, para que jamais me caia no esquecimento
toda aquela vontade de cumprir sonhos como quem cumpre os dias...

Foram mais de mil os dias que passei aqui,
escrevi e apaguei palavras, calei a voz do silêncio como pude,
e como pude, teci um manto de motivos que me façam escrever por toda a vida,
sobre as mais de mil coisas que por pudor ou incerteza fui deixando por escrever…

aqui, neste barco de sentimentos e sentidos,
remado apenas pelo coração,
que entre mais de mil corações, é tão somente o meu,.

                    *                   

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Sonhar Também é um Fado -- E, Há fado neste post

Já tem nome e é o fruto de dois anos de trabalho e muitos mais anos de expetativa. Depois de alguns anos ligada à música ligeira, cantando e interpretando nomes como Sara Tavares e Mafalda veiga, whitney Houston ou Celin dion, o fado chega à minha vida como por acaso, há aproximadamente 5 anos à trás no restaurante adega do David, de que bastantes vezes já ouviram falar e leram por Cá acerca das bonitas noites que lá se concretizam mais ou menos uma vez por mês. Agora, depois de tanto tempo, chego à meta final de um projeto muito complexo e trabalhoso, porém muito gratificante, porque como fadista aprendi imensas coisas, melhorei outras e passei a valorizar pequenas coisas que eu não conseguia perceber, na minha voz, no meu sentir e no ouvir, não só o meu trabalho, como o fado no seu todo. Chama-se Sonhar Também é um Fado, e será o meu primeiro álbum, com 14 temas, interpretações de poemas marcantes que me tem acompanhado ao longo destes cinco anos de aprendizagem, crescimento e vontade. GRAVADO NOS ESTÚDIOS DA Editora Toca a Gravar, este cd tem como finalidade ser um marco na história que ao longo de muitos anos tenho vivido na música, e é também um objetivo alcançado não só pela questão sentimental, que é sem sombra de dúvida a mais importante, uma vez que o que me move na música e no fado é o amor , mas também por uma questão de mostrar ao mundo que cantar é o que eu gosto, quero e sei fazer, e há espaço para todos cantarmos, dançarmos, escrevermos, ou qualquer outra coisa que queiramos fazer, e sermos felizes independentemente da condição que nos diferencia uns dos outros. Este cd chamar-se-á Sonhar Também é um Fado, porque embora seja eu real, há de ser sempre cheio de sonhos este coração que me habita no peito, e que me faz cantar e amar o que eu canto! Produzido pelo guitarrista Carlos Soares da Silva, que com a sua viola dá corpo a este trabalho, e que ao longo deste tempo muito me tem ensinado, e acompanhado por João Núncio, na guitarra Portuguesa, os fados ganham toda uma intensidade que em breve poderão ouvir na íntegra; na edição deste cd está João Matheus, editor e dono da editora Toca a Gravar, que desde o Primeiro instante abraçou o projeto e sabe e sente que este cd não será apenas mais um álbum a chegar ao público; esperando que ele tenha razão convido-vos a ficarem com um tema demonstração deste cd. Esta não é a versão final, porém espero que gostem. Fiquem com o poema de Florbela Espanca – Amar, e a minha interpretação.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Fogo

Uma dedicatória, por Patrícia Magalhães e Joana Rita, a todos os que sofrem, e a todos os que lutam por, e contra esta devastação...


Ilustração © by Patrícia Magalhães
Fogo



Clique aqui para ler descrição da Ilustração


 Arde-me este fogo cá dentro.
Entra-me pelos olhos, pelos ouvidos, posso senti-lo na pele,
na alma, queimando e dilacerando tudo em mim
e nos que o combatem, nos que o enfrentam, como eu não faço,
porque não presto, porque não sirvo.

Mas... arde-me este fogo cá dentro, e enlouquece-me, enerva-me,
magoa-me, e faz-me chorar pelos que o combatem, sentem e pelos que o odeiam
por todos os motivos, ainda mais que eu.

Arde-me este fogo cá dentro, e por fora,
deixando negros os meus sonhos de um lugar melhor, de um mundo melhor,
de um fim de interesses que, sei e pressinto, que  não acaba mais… nunca mais.

Arde-me este fogo cá dentro, e sufoca-me.
Não tenho voz que chegue e sirva para gritar que é preciso pará-lo,
que a terra e o céu estão negros com o fumo que abunda,
e com a tristeza e o medo de quem chora
por tudo o que perdeu…

Arde-me este fogo cá dentro, e entristece-me.
Porque quando não houver mais nada somos só pó e cinza,
como o pó de uma terra queimada, como a cinza do que já existiu mas o fogo levou, o vento soprou
e o manto negro cobriu…

Arde-me este fogo cá dentro, e queima-me também as esperanças.
Sobra-me apenas a saudade do que era verde e agora é só lembrança,
e a certeza de que ficou nas mãos de quem luta corajosamente,
a sorte de quem espera encontrar depois do fogo,
o que sobrou de toda uma vida.

Um começo do recomeço, depois de tanta perda,
depois de tamanho sufoco,
que nem uma chuva de esperança será capaz de apagar…


                    *                  

domingo, 29 de julho de 2018

O Tempo do Nosso Tempo



O tempo - que se nos esgota,
que se nos corre por entre os dedos, e por nada se aloja nas palmas das mãos, no colo, no enlaçar dos braços...

O tempo - que nunca nos sobra,
que tantas vezes nos falta, que nos leva a perguntar: quando foi?

O tempo - que nos escreve nas linhas de expressão a nossa história,
e que ao espelho nos mostra o valor do que fizemos, e a importância do que deixamos para depois.

O tempo -  que se engrandece perante os nossos olhos, mas que é tão pequeno no fim de contas. Que passa tão rápido e tão de fininho por nós, que nos finta e engana sem dificuldade,
e que nos faz sentir no começo de tudo um aperto,
e no fim de tudo tanta saudade.

É esse, o tempo, que sendo infinito é findável,
Que sendo indefinível é insofismável, que sendo impercetível é marcante, que sendo meramente controlado, é naturalmente incontornável.

É o tempo...
uma imensidão de poder querer, aprender, fazer e sentir,
sempre mais.

Ilustração © by Patrícia Magalhães


Nota: Se faz sentido, é tudo uma questão de tempo; e se não faz sentido, é tudo uma questão de sentir.


quarta-feira, 23 de maio de 2018

Declamação do Poema Ondas, -- antologia Poesia Escondida

O poema Ondas, declamado neste vídeo é da minha autoria, e faz parte da coletânea poética Poesia Escondida
Onde se Esconde o Meu Poema, da Pastelaria Estúdios Editora, acerca da qual já vos falei aqui no blogue.

Declamação do poema feita por - Teresa Maria Queiroz

Produção - Pastelaria Studios Audio - GMH

A cada onda, um novo começo, e a cada partida, uma nova estrada...

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Um Autorretrato, um Tributo e um desafio cumprido! -- Por Patrícia e Joana


Às vezes não sei se sou quem me julgo ser,
Vislumbro-me num mar de vidas como a minha, guiada apenas ao sabor de uma intuição tão própria.
A vida, pintada de mil e uma cores, ofusca-me mas eu não sei desistir,
e sorrio-lhe para lá do que os meus olhos podem ver,
e desejo-a para lá do que as minhas mãos possam segurar.
Nem sempre sei se o que vejo é exato, e por isso
paro e espero de mãos pousadas no muro entre mim e o sonho,
Entre um segundo e outro, compreendo mais uma vez o sentido do que me move
nesta esfera em que por vezes me encontro perdida.
Estico o braço e toco o imenso à minha volta com a ponta dos dedos,
e no instante que se segue o meu sonho é o bater do coração de quem amo,
tão real como real é a melodia dos corações que ouço bater,
neste uníssono que é sentir…
nesta esfera que é viver…

E mesmo que o que vejo não pareça nítido,
sigo pelo caminho que se me traça, até onde a vista alcança,
o coração almeja, e o corpo deseja chegar;

apesar de tudo, contra tudo,
E a favor do amor.

Esta sou eu…

Não para sempre, mas sempre enquanto existir.


Ilustração e seguinte texto © by Patrícia Magalhãess



De repente interrompo o gesto automático e fico com a mão suspensa, parada no tempo.
Há um olhar atento que me fixa sem se desviar, uma linha por boca, sem forçar qualquer expressão,
olhos que em seguida rodopiam, alternando o branco e a iris.
Sou eu, distorcida, e é tudo há minha volta.   

As luzes mescladas de tantas fontes tentam-se sobrepor e reclamar destaque.
Claridades que ofuscam quando as olhamos no filamento mais íntimo queimam pontos na minha retina,
e transformam o que vejo, alternando o real e o negativo.
Sou eu, intermitente, e é tudo há minha volta.

Rodo e mudo o ângulo, giro para o outro lado e inverto de novo, lentamente.
Na superfície os motivos sucedem-se, completam-se num desenho infinito, até onde consigo ver,
geometrias habituais , intercalando o espelho e o baço.
Sou eu, interrompida, e é tudo há minha volta.  

O mundo que se reflete é-me tão familiar, é quase o meu mundo, escondido sobre uma patine colorida.
Levanto os olhos e foco mais além, alternando entre o autêntico e o filtro.
Sou eu, através de uma película de cor, e é tudo há minha volta.

Com o mesmo repente com que parei, retomo o gesto.
No meio de todos os enfeites, procuro um ramo vazio e penduro a bola de Natal, reflexo de mim e de tudo há minha volta.


Tributo à gravura “Auto-retrato Num Espelho Esférico” de M. C. Escher (1935)