Agarro-me ao tempo que temos, por medo que seja menos que o tempo
que existe.
Este relógio, de um amor que não vivemos está parado, mas
ainda espero pelos
momentos vividos a dois.
Não morro nos teus braços, mas não vivo sem um abraço vindo
de ti.
Ainda te espero como o verão pelo outono e, ainda
canto o teu nome numa balada que tu não ouves nem sabes que
compus para ti.
E depois da última palavra que me dizes, durmo todas as
noites lado a lado
com a solidão. Tão só como o relógio de um amor
que não temos, e como os ciprestes que sós
sentem arrepiados a carícia que o vento ao passar lhes faz,
quer seja
noite, quer seja dia, pois para o vento, não há relógio, nem
tempo,
nem lugar a que prender-se…
E eu, guardiã de memórias, acaricio as paredes desta casa,
tão cheias de mim e de conversas que recordo, e tão cheias
de palavras escritas em
poemas, histórias e baladas, que têm o teu nome,
mas tu nem sabes que te escrevi, diante ti,
ou diante o teu lugar vazio.
O tempo muda, e muda-nos, mas o relógio está parado.
E o amor, que não muda, é, só mais uma vez,
o motivo das minhas palavras.
Quantos sonhos ainda vou guardar em baixo da almofada, até
que um dia te os possa contar,
e então tu entendas que a vida muda,
na vida tudo muda, mas o amor, não…
*