quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Apenas Silêncio

 

 

Queria ser silêncio. Tudo o que eu queria e precisava era ser silêncio. Não ser palavras. Não escrever palavras. Não dizer palavras. Ser, apenas, silêncio, só silêncio. É que ser palavras é ser tudo o que nunca quiseste ouvir. É ser as linhas de tudo o que nunca quiseste ler. É ser a complexidade de tudo o que nunca quiseste saber. É ser a razão de todas as coisas que estás a viver, e a sentir, a pensar, a entender. E eu, tu sabes, não suporto ser essas palavras. As que ouves, as que sentes, as que compreendes, as que não compreendes, as que pensas agora. Mesmo que eu já te as tenha dito, mostrado e ou feito sentir, eu não suporto ser essas palavras. Tantas palavras. Eu só queria ser silêncio. Apenas silêncio. Como o silêncio deste abraço que me pedes. Deste abraço que te dou. Deste reencontro que sem palavras diz tudo o que sabemos, tudo o que não sabemos mas pensamos, tudo o que sentimos, sem que seja preciso dizer. Deixa que seja silêncio. Tal como preciso de ser – silêncio. E sê tu a palavra - a única que me podes dizer. Quem sabe a única que ainda espero ouvir:
Shhhhh… Fica…

 

 

*

 

 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Unicamente um Poema

 

 

Há um rio entre nós chamado tempo.
E quanto tempo havemos de nos esperar?
Já não somos pergunta, nem certeza,
nem tão pouco qualquer coisa a dizer.
Dizemo-nos de tudo.
Segredos não nos cabem, porque o segredo somos nós.

Há um mundo entre nós chamado miragem.
Ainda olhamos nem sei para onde,
nem sei porquê.
Não nos queremos, não nos largamos,
e por vezes só o que nos dói
é não saber tudo o que existe para lá do muro
que a vida nos impôs.

Não saltamos o muro e
já nem temos mãos para nos darmos.
Há muito que este copo está vazio e
que a vida resvalou para um outro outono sem sonhos,
flores e só folhas caídas,
como os restos de tudo o que nos aconteceu.

E foi assim que nos acontecemos…
Sei que não te lembras. Sei que não me lembro.
E por isso, agora é só agora.
Tal como um verso retido numa única linha,
tal como as linhas que espero um dia
ninguém as possa entender, como nem eu,
nem tu, que depois de nós,
não nos sabemos procurar.

Não é como procurarmos uma casa, ou
um lago de águas claras onde mergulhar.
Não é como ler um livro imenso, na busca
de um final tão inserto e tão fugaz.
Não é como qualquer coisa que se possa escrever.
Não é como qualquer coisa que se possa esperar.

É tão somente como tem de ser.

Único.

 

*