Arranca-se a rosa, e com ela, os espinhos. Na vida tudo, ou
quase tudo podem ser rosas e ou espinhos e, em grande parte isso só depende de
nós, Porém qualquer rosa tem espinhos. Se não tiver espinhos, não é rosa.
Porque não há rosas sem espinhos, a não ser que alguém os corte. E, às vezes,
la por sorte, até há quem nos corte os espinhos às rosas. Mas como as rosas,
quem por algum motivo nos corta os espinhos umas tantas vezes, não dura para
sempre. E, na vida, as rosas não duram para sempre e têm espinhos. Se não
tiverem espinhos, não são rosas. Podem ser se quisermos outra flor qualquer,
mas isso, só depende de nós, que, tal como quem, por simpatia ou outra coisa
qualquer nos corta os espinhos às rosas, não duramos para sempre.
Mergulhar num mar de rosas, é cair num mar de espinhos,
porque os espinhos são para a rosa, o mesmo que a defesa é para o coração – uma
armadura que ora protege, ora magoa, de uma forma tão indefinível, como
indefinível é o amor.
Deve ser isso que os conforta. É por isso que não se
afligem.
Porque para eles, estar só não é estar durante a noite com a
solidão.
Para eles estar só, é não poder estar à hora que lhes
apetece, na companhia que mais os compreende, a dividir pensamentos e
sentimentos que mais ninguém sabe desvendar e ou entender.
Fica aqui, estimados leitores/as e amigos/as, mais um
registo das fabulosas noites de fado no restaurante
Adega do David.
Noites animadas por excelentes fadistas e amigos, e onde o som de guitarras e
violas se fez ouvir, tocado sempre por excelentes guitarristas!
Fado, aleado aos deliciosos sabores, e a interação entre
todos (fadistas, guitarristas, clientes, amigos e staff), foi e é a forte razão
para não perder nem colocar de lado uma ida ao restaurante
Adega do David.
Foi nesta casa que comecei, e nesta casa vou continuar,
sempre com o maior orgulho.
Porque ser fadista é isto: ouvir, aprender, partilhar,
sentir, sorrir, abraçar e, ter e fazer amigos que dão sentido aos sonhos, assim
como todos eles/as deram sentido aos meus sonhos.
Comecei a dar os meus primeiros passos no fado no dia 14 de
abril de 2014.
Já la vai um ano! A emoção que sinto é crescente, e o prazer
que sinto é imenso ao voltar a este espaço, nas noites de fado, de xaile aos
ombros, e ao som de guitarras e violas, cantar e dar sempre o melhor de mim, a
quem acreditou em quem sou.
A lista é extensa. Porém, sei que sabem quem são.
Com um imenso carinho e verdadeira amizade, agradeço a todos
vós o tanto que me têm apoiado, ensinado, e feito crescer enquanto fadista.
Escrevo de longe. Estou tão longe…
Num lugar onde só existe agitação.
Aqui os carros andam loucos de um lado para o outro, e levam lá dentro
mais loucos, absortos na estrada e protegidos em todos os sentidos
pelos vidros dos carros e, pelos vidros dos seus
próprios corações – se é que os têm.
Não sei…
Passam por mim homens engravatados munidos de pastas,
mulheres de saltos e saias acima do joelho.
Não me olham. Não faz mal – eu descrevo-os.
Em comum, transportam olhares perdidos, assim
como os turistas, meio perdidos
meio encontrados, que carregam malas tão grandes como os sonhos que eu trazia,
se bem me recordo, quando cá cheguei,
a este lugar, tão longe de tudo,
e de todos aqueles para quem escrevo.
O senhor do café só me nota quando sou única.
E ser única aqui é difícil e, não me interessa.
O homem dos jornais, aproveita a moeda dada em troca para dar a quem lhe compra
o jornal,
mais um punhado de queixas acerca de
quem já não lê jornais em papel.
Aqui, ainda há um carteiro de bicicleta.
Já ninguém lê cartas, e nem poemas,
mas é melhor calar-me.
Talvez alguém ainda os leia, mesmo que estejam fora de moda
- Posso estar fora de moda…
E uma florista, coitada, de cestos carregados de flores a espera
de quem lhas compre.
Flores? Murcham um dia. É como tudo - acho eu.
Os autocarros desengonçados, levam pessoas aos montes,
e a vida que cada um leva, ora tão desengonçada Quanto o autocarro,
ora tão direita como as linhas que escrevo a respeito,
ou como a linha do comboio que passa do outro lado da rua,
rumo a estação
onde a vida também acontece, como aqui e
como aí - suponho.
Aqui o sol tem como música de fundo
um avião que passa cada vez mais baixo.
Vai rumo ao aeroporto, onde tantas
vidas como a minha recomeçam, e outras tantas vidas
se desenlaçam.
O contador de estrelas, mesmo
que saiba quantas são, conta-as, assim como
conta as pedras da calçada, sempre que nela se deita p’ra dormir,
tão só e tão livre como os seus sonhos.
O luar tem como espelho os vidros das portas e janelas,
e os olhos perdidos de quem não o olha diretamente,
para vê-lo refletido em cada mesa onde partilha mais um copo com a própria
solidão.
Aqui, tudo o que há por de trás das portas
é mistério.
As pessoas importantes devem de continuar a serem importantes;
as pessoas felizes, devem de continuar a serem felizes;
e os loucos, loucos, e
os sós, sós…
E os escritores, ah! Os escritores…
Devem continuar a ser a vida que dá vida
às palavras que muitas vezes são o sentido dos sentidos
dos que sentem, ou não, como por exemplo, eu,
que sinto, vivo e escrevo
acerca dos dias passados neste lugar,
de onde observo o mundo,
E onde transformo em palavras o que me diz o coração.
Nas malas feitas de nada
levei tão somente o que era meu: palavras,
só palavras,
e restos de coisas que um dia foram sonhos – tantos sonhos, e estilhaços…
Estilhaços de uma esperança que já me fizera voar.
Ah, e voei. Tão alto como as nuvens,
tão livre como o ar, tão solta quanto pude ser…
E fui – sempre mais eu.
Como só eu soube ser: a coragem de quem voa
sem medo de pousar numa nuvem,
e tocar o chão, sempre que o coração precisou de adormecer.
E adormeci, com os meus pensamentos livres, ao vento.
Tão livres como os desejos,
e como o luar que me fez companhia pelas madrugadas que
passei a escrever palavras e
reencontros sucessivos entre o meu pensamento,
o pulsar inquieto que me bate no peito, e a minha solidão.