sexta-feira, 3 de abril de 2015

Linhas de um Coração Longínquo

 

 

Escrevo de longe. Estou tão longe…
Num lugar onde só existe agitação.
Aqui os carros andam loucos de um lado para o outro, e levam lá dentro
mais loucos, absortos na estrada e protegidos em todos os sentidos
pelos vidros dos carros e, pelos vidros dos seus
próprios corações – se é que os têm.
Não sei…

Passam por mim homens engravatados munidos de pastas,
mulheres de saltos e saias acima do joelho.
Não me olham. Não faz mal – eu descrevo-os.
Em comum, transportam olhares perdidos, assim
como os turistas, meio perdidos
meio encontrados, que carregam malas tão grandes como os sonhos que eu trazia,
se bem me recordo, quando cá cheguei,
a este lugar, tão longe de tudo,
e de todos aqueles para quem escrevo.

O senhor do café só me nota quando sou única.
E ser única aqui é difícil e, não me interessa.
O homem dos jornais, aproveita a moeda dada em troca para dar a quem lhe compra o jornal,
mais um punhado de queixas acerca de
quem já não lê jornais em papel.
Aqui, ainda há um carteiro de bicicleta.
Já ninguém lê cartas, e nem poemas,
mas é melhor calar-me.

Talvez alguém ainda os leia, mesmo que estejam fora de moda - Posso estar fora de moda…
E uma florista, coitada, de cestos carregados de flores a espera
de quem lhas compre.
Flores? Murcham um dia. É como tudo - acho eu.

Os autocarros desengonçados, levam pessoas aos montes,
e a vida que cada um leva, ora tão desengonçada Quanto o autocarro,
ora tão direita como as linhas que escrevo a respeito,
ou como a linha do comboio que passa do outro lado da rua,
rumo a estação
onde a vida também acontece, como aqui e
como aí - suponho.

Aqui o sol tem como música de fundo
um avião que passa cada vez mais baixo.
Vai rumo ao aeroporto, onde tantas
vidas como a minha recomeçam, e outras tantas vidas
se desenlaçam.
O contador de estrelas, mesmo
que saiba quantas são, conta-as, assim como
conta as pedras da calçada, sempre que nela se deita p’ra dormir,
tão só e tão livre como os seus sonhos.
O luar tem como espelho os vidros das portas e janelas,
e os olhos perdidos de quem não o olha diretamente,
para vê-lo refletido em cada mesa onde partilha mais um copo com a própria solidão.

Aqui, tudo o que há por de trás das portas
é mistério.
As pessoas importantes devem de continuar a serem importantes;
as pessoas felizes, devem de continuar a serem felizes;

e os loucos, loucos, e
os sós, sós…

E os escritores, ah! Os escritores…
Devem continuar a ser a vida que dá vida
às palavras que muitas vezes são o sentido dos sentidos
dos que sentem, ou não, como por exemplo, eu,
que sinto, vivo e escrevo
acerca dos dias passados neste lugar,
de onde observo o mundo,

E onde transformo em palavras o que me diz o coração.

 

*

 

sexta-feira, 20 de março de 2015

Com Poemas Feitos de Vento

 

Com poemas feitos de vento,
parti.

Nas malas feitas de nada
levei tão somente o que era meu: palavras,
só palavras,
e restos de coisas que um dia foram sonhos – tantos sonhos, e estilhaços…

Estilhaços de uma esperança que já me fizera voar.

Ah, e voei. Tão alto como as nuvens,
tão livre como o ar, tão solta quanto pude ser…

E fui – sempre mais eu.
Como só eu soube ser: a coragem de quem voa
sem medo de pousar numa nuvem,
e tocar o chão, sempre que o coração precisou de adormecer.

E adormeci, com os meus pensamentos livres, ao vento.
Tão livres como os desejos,
e como o luar que me fez companhia pelas madrugadas que

passei a escrever palavras e
reencontros sucessivos entre o meu pensamento,
o pulsar inquieto que me bate no peito, e a minha solidão.

 

*

 

quinta-feira, 12 de março de 2015

Gosto, e pronto

 

Gosto de ti. Não sei que raio de coisa é esta, mas gosto de ti. Não acordei hoje e pensei: Gosto de ti. Não. Não foi nada disso que aconteceu. Eu nem sei que raio aconteceu. Tenho cá p'ra mim que não aconteceu mais nada para além de descobrir que gosto de ti. Ou pelo menos, admitir que gosto de ti. Gosto de ti. É tudo. Gosto de ti e não sei que diga, não sei que faça. E por isso, não digo nada. Não faço nada. Mas, gosto de ti. Não é que isto de gostar de ti seja coisa que eu goste. Ou se calhar, até gosto. Porque gosto. Gosto de gostar de ti. Gosto de gostar assim e nem saber que raio é isto de gostar de ti e, como é que me aconteceu. Não sei o que aconteceu, porém gosto de ti. É estranho gostar de ti. Nem devia de gostar de ti, eu sei. Mas gosto… Paciência. E, o que posso eu fazer? Não sei que faça. E como gosto de gostar de ti, limito-me a gostar de ti e, não faço mais nada. Gosto e pronto. Valha este gostar o que valer. Seja este gostar aquilo que for. Pronto. Gosto, e pronto. Não sei se serve de alguma coisa gostar de gostar de ti. Porque não sei se gostar de ti serve de alguma coisa. Mas ainda assim, mesmo não sabendo se serve de alguma coisa, gosto e pronto. Porque gostar talvez seja estar pronta para sentir e abraçar como quem gosta de gostar verdadeiramente de alguém, como eu que gosto de ti, e de gostar de ti, assim tão unicamente, porque és tu, só por seres tu, e pronto.

 

 

*

 

quarta-feira, 11 de março de 2015

Fado Lágrima, no Restaurante Adega do David

Foi assim, no Restaurante Adega do David, no dia 7 de fevereiro de 2015, a minha interpretação do fado Lágrima, acompanhada pelos guitarristas Vítor do Carmo na guitarra portuguesa e José santana na viola de fado, a quem muito agradeço o apoio e o carinho.

 

A todos os que fazem com que estas noites sejam inesquecíveis, sem citar nomes para que ninguém seja esquecido injustamente, o meu muito obrigada, de coração.

 

É verdade que me falhou a voz, porém, não me falha a paixão com que o faço!

 

Siga o Restaurante Adega do David no Facebook e, venha ouvir o fado!

 

 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Apenas Silêncio

 

 

Queria ser silêncio. Tudo o que eu queria e precisava era ser silêncio. Não ser palavras. Não escrever palavras. Não dizer palavras. Ser, apenas, silêncio, só silêncio. É que ser palavras é ser tudo o que nunca quiseste ouvir. É ser as linhas de tudo o que nunca quiseste ler. É ser a complexidade de tudo o que nunca quiseste saber. É ser a razão de todas as coisas que estás a viver, e a sentir, a pensar, a entender. E eu, tu sabes, não suporto ser essas palavras. As que ouves, as que sentes, as que compreendes, as que não compreendes, as que pensas agora. Mesmo que eu já te as tenha dito, mostrado e ou feito sentir, eu não suporto ser essas palavras. Tantas palavras. Eu só queria ser silêncio. Apenas silêncio. Como o silêncio deste abraço que me pedes. Deste abraço que te dou. Deste reencontro que sem palavras diz tudo o que sabemos, tudo o que não sabemos mas pensamos, tudo o que sentimos, sem que seja preciso dizer. Deixa que seja silêncio. Tal como preciso de ser – silêncio. E sê tu a palavra - a única que me podes dizer. Quem sabe a única que ainda espero ouvir:
Shhhhh… Fica…

 

 

*