Foi assim, no Restaurante
Adega do David, no dia 7 de fevereiro de 2015, a minha interpretação do
fado Lágrima, acompanhada pelos guitarristas Vítor do Carmo na guitarra portuguesa
e José santana na viola de fado, a quem muito agradeço o apoio e o carinho.
A todos os que fazem com que estas noites sejam inesquecíveis,
sem citar nomes para que ninguém seja esquecido injustamente, o meu muito
obrigada, de coração.
É verdade que me falhou a voz, porém, não me falha a paixão
com que o faço!
Queria ser silêncio. Tudo o que eu queria e precisava era
ser silêncio. Não ser palavras. Não escrever palavras. Não dizer palavras. Ser,
apenas, silêncio, só silêncio. É que ser palavras é ser tudo o que nunca
quiseste ouvir. É ser as linhas de tudo o que nunca quiseste ler. É ser a
complexidade de tudo o que nunca quiseste saber. É ser a razão de todas as
coisas que estás a viver, e a sentir, a pensar, a entender. E eu, tu sabes, não
suporto ser essas palavras. As que ouves, as que sentes, as que compreendes, as
que não compreendes, as que pensas agora. Mesmo que eu já te as tenha dito,
mostrado e ou feito sentir, eu não suporto ser essas palavras. Tantas palavras.
Eu só queria ser silêncio. Apenas silêncio. Como o silêncio deste abraço que me
pedes. Deste abraço que te dou. Deste reencontro que sem palavras diz tudo o
que sabemos, tudo o que não sabemos mas pensamos, tudo o que sentimos, sem que
seja preciso dizer. Deixa que seja silêncio. Tal como preciso de ser –
silêncio. E sê tu a palavra - a única que me podes dizer. Quem sabe a única que
ainda espero ouvir: Shhhhh… Fica…
Há um rio entre nós chamado tempo.
E quanto tempo havemos de nos esperar?
Já não somos pergunta, nem certeza,
nem tão pouco qualquer coisa a dizer.
Dizemo-nos de tudo.
Segredos não nos cabem, porque o segredo somos nós.
Há um mundo entre nós chamado miragem.
Ainda olhamos nem sei para onde,
nem sei porquê.
Não nos queremos, não nos largamos,
e por vezes só o que nos dói
é não saber tudo o que existe para lá do muro
que a vida nos impôs.
Não saltamos o muro e
já nem temos mãos para nos darmos.
Há muito que este copo está vazio e
que a vida resvalou para um outro outono sem sonhos,
flores e só folhas caídas,
como os restos de tudo o que nos aconteceu.
E foi assim que nos acontecemos…
Sei que não te lembras. Sei que não me lembro.
E por isso, agora é só agora.
Tal como um verso retido numa única linha,
tal como as linhas que espero um dia
ninguém as possa entender, como nem eu,
nem tu, que depois de nós,
não nos sabemos procurar.
Não é como procurarmos uma casa, ou
um lago de águas claras onde mergulhar.
Não é como ler um livro imenso, na busca
de um final tão inserto e tão fugaz.
Não é como qualquer coisa que se possa escrever.
Não é como qualquer coisa que se possa esperar.
Hoje, lembrança, ficas-me bem.
Vestida de tempo, pintada de saudade,
perfumada de outras primaveras
que já senti chegarem aqui, tão perto.
Hoje, sim hoje,
ficas-me bem e
sabes-me tão bem – a sal do mar, a maçã da
época, a fruto silvestre colhido a tempo.
Tens um travo a segredo e um
silêncio de orvalho fresco,
que disfarça as lágrimas que me fogem
dos olhos, p’ra
dar lugar a sinais que ficam
do tempo que já passou.
Ficas-me bem, lembrança…
nestes poemas que escrevo com tinta de sonhos e
Com o cansaço dos passos
que dei p’ra chegar aqui, onde te encontro e
me visto de ti, p’ra
sair por aí, ao encontro de
quem, como eu,
sabe o significado de estar só, como sós
são os sonhos das noites
Esta noite,
não há pinheiros lá fora nem cai a neve.
Só o crepitar das chamas na lareira diz-me que é natal.
E eu sei lá que dizer do natal.
Mataram-no!
Encheram de presentes o espaço reservado para o amor,
e usaram como desculpa a paz que anseiam no mundo.
Só a anseiam no natal, como se
nos outros dias o mundo não fosse mundo, e
a paz não estivesse em falta, e a fome não fosse p’ra muitos
a primeira e a última ceia.
Mas, é natal, dizem momentaneamente solidários, por aí.
Não sei… Não tenho presentes sob o pinheiro.
É que nem pinheiro tenho – não me importa.
Tenho um tronco a queimar na lareira e a esperança de ver
acenderem-se
estrelas reluzentes, e ouvir por muito tempo
o bater do coração de quem amo.
Podia amar toda a gente, mas não posso.
Amo os que posso e rogo que eles façam o mesmo.
Como uma corrente que se propaga,
como um tipo de utopia que sei: não se transforma na realidade verdadeira
a que chamam de natal.
É natal, esta noite.
Não há neve nem pinheiros la fora
mas faz frio.
O mesmo frio de qualquer outra noite.
E na lareira, crepitam as mesmas chamas
que crepitam noutras noites, só que sem nome e sem sonho,
como o sonho de ver acontecer o verdadeiro tempo de natal…