Há um rio entre nós chamado tempo.
E quanto tempo havemos de nos esperar?
Já não somos pergunta, nem certeza,
nem tão pouco qualquer coisa a dizer.
Dizemo-nos de tudo.
Segredos não nos cabem, porque o segredo somos nós.
Há um mundo entre nós chamado miragem.
Ainda olhamos nem sei para onde,
nem sei porquê.
Não nos queremos, não nos largamos,
e por vezes só o que nos dói
é não saber tudo o que existe para lá do muro
que a vida nos impôs.
Não saltamos o muro e
já nem temos mãos para nos darmos.
Há muito que este copo está vazio e
que a vida resvalou para um outro outono sem sonhos,
flores e só folhas caídas,
como os restos de tudo o que nos aconteceu.
E foi assim que nos acontecemos…
Sei que não te lembras. Sei que não me lembro.
E por isso, agora é só agora.
Tal como um verso retido numa única linha,
tal como as linhas que espero um dia
ninguém as possa entender, como nem eu,
nem tu, que depois de nós,
não nos sabemos procurar.
Não é como procurarmos uma casa, ou
um lago de águas claras onde mergulhar.
Não é como ler um livro imenso, na busca
de um final tão inserto e tão fugaz.
Não é como qualquer coisa que se possa escrever.
Não é como qualquer coisa que se possa esperar.
Hoje, lembrança, ficas-me bem.
Vestida de tempo, pintada de saudade,
perfumada de outras primaveras
que já senti chegarem aqui, tão perto.
Hoje, sim hoje,
ficas-me bem e
sabes-me tão bem – a sal do mar, a maçã da
época, a fruto silvestre colhido a tempo.
Tens um travo a segredo e um
silêncio de orvalho fresco,
que disfarça as lágrimas que me fogem
dos olhos, p’ra
dar lugar a sinais que ficam
do tempo que já passou.
Ficas-me bem, lembrança…
nestes poemas que escrevo com tinta de sonhos e
Com o cansaço dos passos
que dei p’ra chegar aqui, onde te encontro e
me visto de ti, p’ra
sair por aí, ao encontro de
quem, como eu,
sabe o significado de estar só, como sós
são os sonhos das noites
Esta noite,
não há pinheiros lá fora nem cai a neve.
Só o crepitar das chamas na lareira diz-me que é natal.
E eu sei lá que dizer do natal.
Mataram-no!
Encheram de presentes o espaço reservado para o amor,
e usaram como desculpa a paz que anseiam no mundo.
Só a anseiam no natal, como se
nos outros dias o mundo não fosse mundo, e
a paz não estivesse em falta, e a fome não fosse p’ra muitos
a primeira e a última ceia.
Mas, é natal, dizem momentaneamente solidários, por aí.
Não sei… Não tenho presentes sob o pinheiro.
É que nem pinheiro tenho – não me importa.
Tenho um tronco a queimar na lareira e a esperança de ver
acenderem-se
estrelas reluzentes, e ouvir por muito tempo
o bater do coração de quem amo.
Podia amar toda a gente, mas não posso.
Amo os que posso e rogo que eles façam o mesmo.
Como uma corrente que se propaga,
como um tipo de utopia que sei: não se transforma na realidade verdadeira
a que chamam de natal.
É natal, esta noite.
Não há neve nem pinheiros la fora
mas faz frio.
O mesmo frio de qualquer outra noite.
E na lareira, crepitam as mesmas chamas
que crepitam noutras noites, só que sem nome e sem sonho,
como o sonho de ver acontecer o verdadeiro tempo de natal…
“Personagens da Solidão”, foi e é uma crónica literária, realizada para a disciplina
de Português.
Sentada à mesa do canto da biblioteca, encaro as lombadas
dos imensos livros. Tudo é silêncio à minha volta. Estou só com os meus
pensamentos e um punhado de palavras prestes a fugirem-me da imaginação. Olho a
estante à minha esquerda, repleta de títulos de obras encadernadas em capas
marcadas pelos anos. Salta-me a vista, inesperadamente, um cavaleiro fantástico
que passa por uma bela dama de vestido e chapéu a condizer. Cumprimentam-se. A
sena, como num filme transposto para a realidade, desenrola-se diante mim. De
repente, atempadamente, como aqueles, mais personagens abandonam os livros.
Vejo-os, mas, nenhum deles parece ver-me. Como que a espiá-los permaneço ali,
torcendo para que não partam e sobre tudo, para que ninguém, para além de mim
entre na biblioteca da casa.
Continuando a observá-los, vejo saírem mais personagens
vindas de livros dos mais variados estilos, séculos, épocas e autores. Nada
parece fazer-me sentido. Concentro-me nas suas conversas, nas suas
manifestações de reencontro. E eis que dou por mim a percebê-los. Precisam-se. Fartaram-se
da solidão de cada mundo impresso nas páginas dos seus livros. Cansaram-se de
não se sentirem acompanhados por quem não os lê. Cansaram-se da solidão e da
sisudez da biblioteca e saíam cá para fora a fim de se procurarem e de se
encontrarem para além das páginas dos seus livros, onde nascem e findam para cada
um dos seus leitores ou, onde permanecem invisíveis e sós para quem deles não quis,
nem quer saber.
Há um velho ancião saído de um livro que me nota.
Aproxima-se de mim e sussurra-me: «Talvez agora não nos esqueças. Mas há quem
nos esquece e assim permanecemos sós, uns com os outros, nos respetivos livros,
mas sem quem nos queira ler…» Compreendo-o e, como não o compreender? Aceno
afirmativamente e silenciosamente com a cabeça, e ele continua: «Assim segue o
mundo… A solidão é uma besta. Tanto pode ser escolha como imposição. Ou se
escolhe ficar só, ou se escolhe fugir dessa realidade vazia que é estar
sozinho. Ou então, impõem-nos ficarmos sós, como é o caso de todas estas
personagens que vês. Quando chegar à hora, voltamos para os livros e ficamos
sós, até que chegue, se chegar, o próximo leitor. Quem sabe…»
Vira-me as costas e como os outros, parte. Da última
prateleira ouço-o ainda dizer: «Se deixarmos, a solidão não parte…» Entendo-o
e, detenho ca pra mim que ainda nos havemos de encontrar, nem que seja pelo
motivo de não ficarmos demasiado sós, como ficamos por tanta vez…