quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Unicamente um Poema

 

 

Há um rio entre nós chamado tempo.
E quanto tempo havemos de nos esperar?
Já não somos pergunta, nem certeza,
nem tão pouco qualquer coisa a dizer.
Dizemo-nos de tudo.
Segredos não nos cabem, porque o segredo somos nós.

Há um mundo entre nós chamado miragem.
Ainda olhamos nem sei para onde,
nem sei porquê.
Não nos queremos, não nos largamos,
e por vezes só o que nos dói
é não saber tudo o que existe para lá do muro
que a vida nos impôs.

Não saltamos o muro e
já nem temos mãos para nos darmos.
Há muito que este copo está vazio e
que a vida resvalou para um outro outono sem sonhos,
flores e só folhas caídas,
como os restos de tudo o que nos aconteceu.

E foi assim que nos acontecemos…
Sei que não te lembras. Sei que não me lembro.
E por isso, agora é só agora.
Tal como um verso retido numa única linha,
tal como as linhas que espero um dia
ninguém as possa entender, como nem eu,
nem tu, que depois de nós,
não nos sabemos procurar.

Não é como procurarmos uma casa, ou
um lago de águas claras onde mergulhar.
Não é como ler um livro imenso, na busca
de um final tão inserto e tão fugaz.
Não é como qualquer coisa que se possa escrever.
Não é como qualquer coisa que se possa esperar.

É tão somente como tem de ser.

Único.

 

*

 

 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Hoje Ficas-me Bem

 

 

Hoje, lembrança, ficas-me bem.
Vestida de tempo, pintada de saudade,
perfumada de outras primaveras
que já senti chegarem aqui, tão perto.

Hoje, sim hoje,
ficas-me bem e
sabes-me tão bem – a sal do mar, a maçã da
época, a fruto silvestre colhido a tempo.

Tens um travo a segredo e um

silêncio de orvalho fresco,
que disfarça as lágrimas que me fogem
dos olhos, p’ra
dar lugar a sinais que ficam
do tempo que já passou.

Ficas-me bem, lembrança…
nestes poemas que escrevo com tinta de sonhos e
Com o cansaço dos passos
que dei p’ra chegar aqui, onde te encontro e
me visto de ti, p’ra
sair por aí, ao encontro de
quem, como eu,
sabe o significado de estar só, como sós
são os sonhos das noites

Perdidas, que ficam, tu sabes,
 por esquecer…

 

*

 

 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Utopia - Um Sonho de Natal

 

 

Esta noite,
não há pinheiros lá fora nem cai a neve.
Só o crepitar das chamas na lareira diz-me que é natal.

E eu sei lá que dizer do natal.

Mataram-no!

Encheram de presentes o espaço reservado para o amor,
e usaram como desculpa a paz que anseiam no mundo.
Só a anseiam no natal, como se
nos outros dias o mundo não fosse mundo, e
a paz não estivesse em falta, e a fome não fosse p’ra muitos
a primeira e a última ceia.

Mas, é natal, dizem momentaneamente solidários, por aí.

Não sei… Não tenho presentes sob o pinheiro.
É que nem pinheiro tenho – não me importa.

Tenho um tronco a queimar na lareira e a esperança de ver acenderem-se
estrelas reluzentes, e ouvir por muito tempo
o bater do coração de quem amo.

Podia amar toda a gente, mas não posso.

Amo os que posso e rogo que eles façam o mesmo.
Como uma corrente que se propaga,
como um tipo de utopia que sei: não se transforma na realidade verdadeira
a que chamam de natal.

É natal, esta noite.
Não há neve nem pinheiros la fora
mas faz frio.
O mesmo frio de qualquer outra noite.
E na lareira, crepitam as mesmas chamas
que crepitam noutras noites, só que sem nome e sem sonho,
como o sonho de ver acontecer o verdadeiro tempo de natal…

 

*

 

 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Temo, um dia

 

 

Temo, um dia,

que o coração deixe de ser criança,

e que os sonhos se acabem, e a esperança se finde,

e os motivos para sorrir deixem de acontecer.

 

Temo, um dia,

que o coração se torne adulto, e

tudo o que eu adoro, deixe de adorar, e

tudo o que eu sinto, deixe de sentir, e

tudo o que me faz feliz, me faça chorar, e

tudo o que me faz querer ficar, se torne em motivo p'ra partir.

 

Temo, um dia, que o coração se apequene…

deixe espaço no peito,

guarde demasiados restos do que podia ter sido, e

não acredite mais no que pode vir a ser.

 

Temo, um dia, que eu,

tão crescida, deixe de ser criança.

É que ser criança é ser a simplicidade de viver.

E ser adulto é muitas vezes a desculpa

para já não sonhar.

 

*

 

“Lá, dos tempos em que só escrevia para mim, e para mais ninguém…”

 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Personagens da Solidão

Tema:

A solidão (não) é uma escolha do ser humano.

“Personagens da Solidão”, foi e é uma crónica literária, realizada para a disciplina de Português.

 

 

Sentada à mesa do canto da biblioteca, encaro as lombadas dos imensos livros. Tudo é silêncio à minha volta. Estou só com os meus pensamentos e um punhado de palavras prestes a fugirem-me da imaginação. Olho a estante à minha esquerda, repleta de títulos de obras encadernadas em capas marcadas pelos anos. Salta-me a vista, inesperadamente, um cavaleiro fantástico que passa por uma bela dama de vestido e chapéu a condizer. Cumprimentam-se. A sena, como num filme transposto para a realidade, desenrola-se diante mim. De repente, atempadamente, como aqueles, mais personagens abandonam os livros. Vejo-os, mas, nenhum deles parece ver-me. Como que a espiá-los permaneço ali, torcendo para que não partam e sobre tudo, para que ninguém, para além de mim entre na biblioteca da casa.

Continuando a observá-los, vejo saírem mais personagens vindas de livros dos mais variados estilos, séculos, épocas e autores. Nada parece fazer-me sentido. Concentro-me nas suas conversas, nas suas manifestações de reencontro. E eis que dou por mim a percebê-los. Precisam-se. Fartaram-se da solidão de cada mundo impresso nas páginas dos seus livros. Cansaram-se de não se sentirem acompanhados por quem não os lê. Cansaram-se da solidão e da sisudez da biblioteca e saíam cá para fora a fim de se procurarem e de se encontrarem para além das páginas dos seus livros, onde nascem e findam para cada um dos seus leitores ou, onde permanecem invisíveis e sós para quem deles não quis, nem quer saber.

Há um velho ancião saído de um livro que me nota. Aproxima-se de mim e sussurra-me: «Talvez agora não nos esqueças. Mas há quem nos esquece e assim permanecemos sós, uns com os outros, nos respetivos livros, mas sem quem nos queira ler…» Compreendo-o e, como não o compreender? Aceno afirmativamente e silenciosamente com a cabeça, e ele continua: «Assim segue o mundo… A solidão é uma besta. Tanto pode ser escolha como imposição. Ou se escolhe ficar só, ou se escolhe fugir dessa realidade vazia que é estar sozinho. Ou então, impõem-nos ficarmos sós, como é o caso de todas estas personagens que vês. Quando chegar à hora, voltamos para os livros e ficamos sós, até que chegue, se chegar, o próximo leitor. Quem sabe…»

Vira-me as costas e como os outros, parte. Da última prateleira ouço-o ainda dizer: «Se deixarmos, a solidão não parte…» Entendo-o e, detenho ca pra mim que ainda nos havemos de encontrar, nem que seja pelo motivo de não ficarmos demasiado sós, como ficamos por tanta vez…

 

 

*