quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Utopia - Um Sonho de Natal

 

 

Esta noite,
não há pinheiros lá fora nem cai a neve.
Só o crepitar das chamas na lareira diz-me que é natal.

E eu sei lá que dizer do natal.

Mataram-no!

Encheram de presentes o espaço reservado para o amor,
e usaram como desculpa a paz que anseiam no mundo.
Só a anseiam no natal, como se
nos outros dias o mundo não fosse mundo, e
a paz não estivesse em falta, e a fome não fosse p’ra muitos
a primeira e a última ceia.

Mas, é natal, dizem momentaneamente solidários, por aí.

Não sei… Não tenho presentes sob o pinheiro.
É que nem pinheiro tenho – não me importa.

Tenho um tronco a queimar na lareira e a esperança de ver acenderem-se
estrelas reluzentes, e ouvir por muito tempo
o bater do coração de quem amo.

Podia amar toda a gente, mas não posso.

Amo os que posso e rogo que eles façam o mesmo.
Como uma corrente que se propaga,
como um tipo de utopia que sei: não se transforma na realidade verdadeira
a que chamam de natal.

É natal, esta noite.
Não há neve nem pinheiros la fora
mas faz frio.
O mesmo frio de qualquer outra noite.
E na lareira, crepitam as mesmas chamas
que crepitam noutras noites, só que sem nome e sem sonho,
como o sonho de ver acontecer o verdadeiro tempo de natal…

 

*

 

 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Temo, um dia

 

 

Temo, um dia,

que o coração deixe de ser criança,

e que os sonhos se acabem, e a esperança se finde,

e os motivos para sorrir deixem de acontecer.

 

Temo, um dia,

que o coração se torne adulto, e

tudo o que eu adoro, deixe de adorar, e

tudo o que eu sinto, deixe de sentir, e

tudo o que me faz feliz, me faça chorar, e

tudo o que me faz querer ficar, se torne em motivo p'ra partir.

 

Temo, um dia, que o coração se apequene…

deixe espaço no peito,

guarde demasiados restos do que podia ter sido, e

não acredite mais no que pode vir a ser.

 

Temo, um dia, que eu,

tão crescida, deixe de ser criança.

É que ser criança é ser a simplicidade de viver.

E ser adulto é muitas vezes a desculpa

para já não sonhar.

 

*

 

“Lá, dos tempos em que só escrevia para mim, e para mais ninguém…”

 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Personagens da Solidão

Tema:

A solidão (não) é uma escolha do ser humano.

“Personagens da Solidão”, foi e é uma crónica literária, realizada para a disciplina de Português.

 

 

Sentada à mesa do canto da biblioteca, encaro as lombadas dos imensos livros. Tudo é silêncio à minha volta. Estou só com os meus pensamentos e um punhado de palavras prestes a fugirem-me da imaginação. Olho a estante à minha esquerda, repleta de títulos de obras encadernadas em capas marcadas pelos anos. Salta-me a vista, inesperadamente, um cavaleiro fantástico que passa por uma bela dama de vestido e chapéu a condizer. Cumprimentam-se. A sena, como num filme transposto para a realidade, desenrola-se diante mim. De repente, atempadamente, como aqueles, mais personagens abandonam os livros. Vejo-os, mas, nenhum deles parece ver-me. Como que a espiá-los permaneço ali, torcendo para que não partam e sobre tudo, para que ninguém, para além de mim entre na biblioteca da casa.

Continuando a observá-los, vejo saírem mais personagens vindas de livros dos mais variados estilos, séculos, épocas e autores. Nada parece fazer-me sentido. Concentro-me nas suas conversas, nas suas manifestações de reencontro. E eis que dou por mim a percebê-los. Precisam-se. Fartaram-se da solidão de cada mundo impresso nas páginas dos seus livros. Cansaram-se de não se sentirem acompanhados por quem não os lê. Cansaram-se da solidão e da sisudez da biblioteca e saíam cá para fora a fim de se procurarem e de se encontrarem para além das páginas dos seus livros, onde nascem e findam para cada um dos seus leitores ou, onde permanecem invisíveis e sós para quem deles não quis, nem quer saber.

Há um velho ancião saído de um livro que me nota. Aproxima-se de mim e sussurra-me: «Talvez agora não nos esqueças. Mas há quem nos esquece e assim permanecemos sós, uns com os outros, nos respetivos livros, mas sem quem nos queira ler…» Compreendo-o e, como não o compreender? Aceno afirmativamente e silenciosamente com a cabeça, e ele continua: «Assim segue o mundo… A solidão é uma besta. Tanto pode ser escolha como imposição. Ou se escolhe ficar só, ou se escolhe fugir dessa realidade vazia que é estar sozinho. Ou então, impõem-nos ficarmos sós, como é o caso de todas estas personagens que vês. Quando chegar à hora, voltamos para os livros e ficamos sós, até que chegue, se chegar, o próximo leitor. Quem sabe…»

Vira-me as costas e como os outros, parte. Da última prateleira ouço-o ainda dizer: «Se deixarmos, a solidão não parte…» Entendo-o e, detenho ca pra mim que ainda nos havemos de encontrar, nem que seja pelo motivo de não ficarmos demasiado sós, como ficamos por tanta vez…

 

 

*

 

 

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Poemas, sei lá eu, se por escrever

 

 

Caíram-me os poemas ao chão.

Há versos soltos, espalhados
pela alcatifa,
pelo ar, pelo fim e
pelo recomeço constante dos dias.
Não os recolho.
Não os posso saber de cor, conhecer-lhes as entrelinhas - as mesmas
que não leio, que não conheço, que
não posso sentir...

 

Caíram-me os poemas ao chão.

Rimas, já não as trago, não as tenho,
não as sei.
São livres como as asas dos meus sonhos, os
meus versos.

E os meus reversos…. Ah” sei la eu
dos meus reversos,
quanto mais saber dos dias, em que as palavras são
braços pungentes que me embalam, e as entrelinhas
dos meus poemas são pouco de quase nada que o
tempo traz e leva ao sabor de outros poemas, sei la eu
se por escrever. Quem sabe?

Ninguém. Ou quem, como eu,
viu cair-lhe ao chão poemas como os meus – pedaços de tudo o que existe,
para além dos versos, para além da razão – a minha, que corre
ao sabor do pulsar do coração – o meu,
que por ser meu
voa livre, até onde o tempo o deixar voar.

 

Caíram-me os poemas ao chão.

Eram tantos…
E os versos… Que dizer dos versos.

Tantos versos e, tantas entrelinhas que só
o tempo e as palavras sabem como declamar, agora,
que de tudo, fica tão pouco,
neste chão tão cheio de nada, como em nada
se transformam todas as coisas que em poemas
vivi.

 

*

 

 

Rascunhos do Pensamento

 

·         Toda a minha vida de escritora não passou de um tempo de possibilidade de dar forma às palavras que nunca pude dizer, talvez por medo de que perdessem a força ao verbalizá-las.

 

·         Roubarem-me as palavras que escrevo e, afastarem-me da oportunidade de o fazer é, silenciarem-me o coração.

 

·         Quem dera, toda a saudade que sinto fosse um poema... Assim sei que, tal como o poema, toda a saudade que sinto, terminaria.

 

*