Esta noite,
não há pinheiros lá fora nem cai a neve.
Só o crepitar das chamas na lareira diz-me que é natal.
E eu sei lá que dizer do natal.
Mataram-no!
Encheram de presentes o espaço reservado para o amor,
e usaram como desculpa a paz que anseiam no mundo.
Só a anseiam no natal, como se
nos outros dias o mundo não fosse mundo, e
a paz não estivesse em falta, e a fome não fosse p’ra muitos
a primeira e a última ceia.
Mas, é natal, dizem momentaneamente solidários, por aí.
Não sei… Não tenho presentes sob o pinheiro.
É que nem pinheiro tenho – não me importa.
Tenho um tronco a queimar na lareira e a esperança de ver
acenderem-se
estrelas reluzentes, e ouvir por muito tempo
o bater do coração de quem amo.
Podia amar toda a gente, mas não posso.
Amo os que posso e rogo que eles façam o mesmo.
Como uma corrente que se propaga,
como um tipo de utopia que sei: não se transforma na realidade verdadeira
a que chamam de natal.
É natal, esta noite.
Não há neve nem pinheiros la fora
mas faz frio.
O mesmo frio de qualquer outra noite.
E na lareira, crepitam as mesmas chamas
que crepitam noutras noites, só que sem nome e sem sonho,
como o sonho de ver acontecer o verdadeiro tempo de natal…
*