Hoje, lembrança, ficas-me bem.
Vestida de tempo, pintada de saudade,
perfumada de outras primaveras
que já senti chegarem aqui, tão perto.
Hoje, sim hoje,
ficas-me bem e
sabes-me tão bem – a sal do mar, a maçã da
época, a fruto silvestre colhido a tempo.
Tens um travo a segredo e um
silêncio de orvalho fresco,
que disfarça as lágrimas que me fogem
dos olhos, p’ra
dar lugar a sinais que ficam
do tempo que já passou.
Ficas-me bem, lembrança…
nestes poemas que escrevo com tinta de sonhos e
Com o cansaço dos passos
que dei p’ra chegar aqui, onde te encontro e
me visto de ti, p’ra
sair por aí, ao encontro de
quem, como eu,
sabe o significado de estar só, como sós
são os sonhos das noites
Esta noite,
não há pinheiros lá fora nem cai a neve.
Só o crepitar das chamas na lareira diz-me que é natal.
E eu sei lá que dizer do natal.
Mataram-no!
Encheram de presentes o espaço reservado para o amor,
e usaram como desculpa a paz que anseiam no mundo.
Só a anseiam no natal, como se
nos outros dias o mundo não fosse mundo, e
a paz não estivesse em falta, e a fome não fosse p’ra muitos
a primeira e a última ceia.
Mas, é natal, dizem momentaneamente solidários, por aí.
Não sei… Não tenho presentes sob o pinheiro.
É que nem pinheiro tenho – não me importa.
Tenho um tronco a queimar na lareira e a esperança de ver
acenderem-se
estrelas reluzentes, e ouvir por muito tempo
o bater do coração de quem amo.
Podia amar toda a gente, mas não posso.
Amo os que posso e rogo que eles façam o mesmo.
Como uma corrente que se propaga,
como um tipo de utopia que sei: não se transforma na realidade verdadeira
a que chamam de natal.
É natal, esta noite.
Não há neve nem pinheiros la fora
mas faz frio.
O mesmo frio de qualquer outra noite.
E na lareira, crepitam as mesmas chamas
que crepitam noutras noites, só que sem nome e sem sonho,
como o sonho de ver acontecer o verdadeiro tempo de natal…
“Personagens da Solidão”, foi e é uma crónica literária, realizada para a disciplina
de Português.
Sentada à mesa do canto da biblioteca, encaro as lombadas
dos imensos livros. Tudo é silêncio à minha volta. Estou só com os meus
pensamentos e um punhado de palavras prestes a fugirem-me da imaginação. Olho a
estante à minha esquerda, repleta de títulos de obras encadernadas em capas
marcadas pelos anos. Salta-me a vista, inesperadamente, um cavaleiro fantástico
que passa por uma bela dama de vestido e chapéu a condizer. Cumprimentam-se. A
sena, como num filme transposto para a realidade, desenrola-se diante mim. De
repente, atempadamente, como aqueles, mais personagens abandonam os livros.
Vejo-os, mas, nenhum deles parece ver-me. Como que a espiá-los permaneço ali,
torcendo para que não partam e sobre tudo, para que ninguém, para além de mim
entre na biblioteca da casa.
Continuando a observá-los, vejo saírem mais personagens
vindas de livros dos mais variados estilos, séculos, épocas e autores. Nada
parece fazer-me sentido. Concentro-me nas suas conversas, nas suas
manifestações de reencontro. E eis que dou por mim a percebê-los. Precisam-se. Fartaram-se
da solidão de cada mundo impresso nas páginas dos seus livros. Cansaram-se de
não se sentirem acompanhados por quem não os lê. Cansaram-se da solidão e da
sisudez da biblioteca e saíam cá para fora a fim de se procurarem e de se
encontrarem para além das páginas dos seus livros, onde nascem e findam para cada
um dos seus leitores ou, onde permanecem invisíveis e sós para quem deles não quis,
nem quer saber.
Há um velho ancião saído de um livro que me nota.
Aproxima-se de mim e sussurra-me: «Talvez agora não nos esqueças. Mas há quem
nos esquece e assim permanecemos sós, uns com os outros, nos respetivos livros,
mas sem quem nos queira ler…» Compreendo-o e, como não o compreender? Aceno
afirmativamente e silenciosamente com a cabeça, e ele continua: «Assim segue o
mundo… A solidão é uma besta. Tanto pode ser escolha como imposição. Ou se
escolhe ficar só, ou se escolhe fugir dessa realidade vazia que é estar
sozinho. Ou então, impõem-nos ficarmos sós, como é o caso de todas estas
personagens que vês. Quando chegar à hora, voltamos para os livros e ficamos
sós, até que chegue, se chegar, o próximo leitor. Quem sabe…»
Vira-me as costas e como os outros, parte. Da última
prateleira ouço-o ainda dizer: «Se deixarmos, a solidão não parte…» Entendo-o
e, detenho ca pra mim que ainda nos havemos de encontrar, nem que seja pelo
motivo de não ficarmos demasiado sós, como ficamos por tanta vez…
Há versos soltos, espalhados
pela alcatifa,
pelo ar, pelo fim e
pelo recomeço constante dos dias.
Não os recolho.
Não os posso saber de cor, conhecer-lhes as entrelinhas - as mesmas
que não leio, que não conheço, que
não posso sentir...
Caíram-me os poemas ao chão.
Rimas, já não as trago, não as tenho,
não as sei.
São livres como as asas dos meus sonhos, os
meus versos.
E os meus reversos…. Ah” sei la eu
dos meus reversos,
quanto mais saber dos dias, em que as palavras são
braços pungentes que me embalam, e as entrelinhas
dos meus poemas são pouco de quase nada que o
tempo traz e leva ao sabor de outros poemas, sei la eu
se por escrever. Quem sabe?
Ninguém. Ou quem, como eu,
viu cair-lhe ao chão poemas como os meus – pedaços de tudo o que existe,
para além dos versos, para além da razão – a minha, que corre
ao sabor do pulsar do coração – o meu,
que por ser meu
voa livre, até onde o tempo o deixar voar.
Caíram-me os poemas ao chão.
Eram tantos…
E os versos… Que dizer dos versos.
Tantos versos e, tantas entrelinhas que só
o tempo e as palavras sabem como declamar, agora,
que de tudo, fica tão pouco,
neste chão tão cheio de nada, como em nada
se transformam todas as coisas que em poemas
vivi.
*
Rascunhos do Pensamento
·Toda a minha vida de escritora não passou de um
tempo de possibilidade de dar forma às palavras que nunca pude dizer, talvez
por medo de que perdessem a força ao verbalizá-las.
·Roubarem-me as palavras que escrevo e,
afastarem-me da oportunidade de o fazer é, silenciarem-me o coração.
·Quem dera, toda a saudade que sinto fosse um
poema... Assim sei que, tal como o poema, toda a saudade que sinto, terminaria.