“Personagens da Solidão”, foi e é uma crónica literária, realizada para a disciplina
de Português.
Sentada à mesa do canto da biblioteca, encaro as lombadas
dos imensos livros. Tudo é silêncio à minha volta. Estou só com os meus
pensamentos e um punhado de palavras prestes a fugirem-me da imaginação. Olho a
estante à minha esquerda, repleta de títulos de obras encadernadas em capas
marcadas pelos anos. Salta-me a vista, inesperadamente, um cavaleiro fantástico
que passa por uma bela dama de vestido e chapéu a condizer. Cumprimentam-se. A
sena, como num filme transposto para a realidade, desenrola-se diante mim. De
repente, atempadamente, como aqueles, mais personagens abandonam os livros.
Vejo-os, mas, nenhum deles parece ver-me. Como que a espiá-los permaneço ali,
torcendo para que não partam e sobre tudo, para que ninguém, para além de mim
entre na biblioteca da casa.
Continuando a observá-los, vejo saírem mais personagens
vindas de livros dos mais variados estilos, séculos, épocas e autores. Nada
parece fazer-me sentido. Concentro-me nas suas conversas, nas suas
manifestações de reencontro. E eis que dou por mim a percebê-los. Precisam-se. Fartaram-se
da solidão de cada mundo impresso nas páginas dos seus livros. Cansaram-se de
não se sentirem acompanhados por quem não os lê. Cansaram-se da solidão e da
sisudez da biblioteca e saíam cá para fora a fim de se procurarem e de se
encontrarem para além das páginas dos seus livros, onde nascem e findam para cada
um dos seus leitores ou, onde permanecem invisíveis e sós para quem deles não quis,
nem quer saber.
Há um velho ancião saído de um livro que me nota.
Aproxima-se de mim e sussurra-me: «Talvez agora não nos esqueças. Mas há quem
nos esquece e assim permanecemos sós, uns com os outros, nos respetivos livros,
mas sem quem nos queira ler…» Compreendo-o e, como não o compreender? Aceno
afirmativamente e silenciosamente com a cabeça, e ele continua: «Assim segue o
mundo… A solidão é uma besta. Tanto pode ser escolha como imposição. Ou se
escolhe ficar só, ou se escolhe fugir dessa realidade vazia que é estar
sozinho. Ou então, impõem-nos ficarmos sós, como é o caso de todas estas
personagens que vês. Quando chegar à hora, voltamos para os livros e ficamos
sós, até que chegue, se chegar, o próximo leitor. Quem sabe…»
Vira-me as costas e como os outros, parte. Da última
prateleira ouço-o ainda dizer: «Se deixarmos, a solidão não parte…» Entendo-o
e, detenho ca pra mim que ainda nos havemos de encontrar, nem que seja pelo
motivo de não ficarmos demasiado sós, como ficamos por tanta vez…
Há versos soltos, espalhados
pela alcatifa,
pelo ar, pelo fim e
pelo recomeço constante dos dias.
Não os recolho.
Não os posso saber de cor, conhecer-lhes as entrelinhas - as mesmas
que não leio, que não conheço, que
não posso sentir...
Caíram-me os poemas ao chão.
Rimas, já não as trago, não as tenho,
não as sei.
São livres como as asas dos meus sonhos, os
meus versos.
E os meus reversos…. Ah” sei la eu
dos meus reversos,
quanto mais saber dos dias, em que as palavras são
braços pungentes que me embalam, e as entrelinhas
dos meus poemas são pouco de quase nada que o
tempo traz e leva ao sabor de outros poemas, sei la eu
se por escrever. Quem sabe?
Ninguém. Ou quem, como eu,
viu cair-lhe ao chão poemas como os meus – pedaços de tudo o que existe,
para além dos versos, para além da razão – a minha, que corre
ao sabor do pulsar do coração – o meu,
que por ser meu
voa livre, até onde o tempo o deixar voar.
Caíram-me os poemas ao chão.
Eram tantos…
E os versos… Que dizer dos versos.
Tantos versos e, tantas entrelinhas que só
o tempo e as palavras sabem como declamar, agora,
que de tudo, fica tão pouco,
neste chão tão cheio de nada, como em nada
se transformam todas as coisas que em poemas
vivi.
*
Rascunhos do Pensamento
·Toda a minha vida de escritora não passou de um
tempo de possibilidade de dar forma às palavras que nunca pude dizer, talvez
por medo de que perdessem a força ao verbalizá-las.
·Roubarem-me as palavras que escrevo e,
afastarem-me da oportunidade de o fazer é, silenciarem-me o coração.
·Quem dera, toda a saudade que sinto fosse um
poema... Assim sei que, tal como o poema, toda a saudade que sinto, terminaria.
Dei comigo perdida em pensamentos, lembranças e sonhos.
Tantas. Tantas coisas que tinham feito sentido.
Senti de súbito cansaço.
Um cansaço tão forte, tão grande, tão pesado que
julguei ter-me sido colocado o mundo sobre os ombros.
Mas era só, apercebi-me, o meu mundo sobre os meus ombros…
Um par de coisas que tinha feito no passado,
um alguém que havia amado,
um projeto que tinha abraçado. Sei lá.
Tantas coisas…
Mas, há um grito que me arranca de mim própria.
É como um suspiro que ficou esquecido algures no meu fundo ou,
um momento que vai do riso às lágrimas, sem que eu saiba porquê;
sem que eu entenda porquê.
Estou cansada e a vida, pesa-me aos ombros.
Ainda há um adeus que deixei por dizer,
um amo-te que morre sem que o possa contar.
Há um abraço que preciso p'ra me fazer sorrir,
uma ausência demasiada p'ra me fazer chorar.
Estou cansada e suspiro por fim, um poema.
Só mais um grito de quem coleciona estrelas
que me lembram a cada estremecimento de dor,
que há, mesmo sendo longe,
um céu azul onde tanto quero chegar, e
há, um repousar seguro, p’ra me lembrar que todo o cansaço
é um tanto de vitória, pela coragem de não me deixar desistir.
*
Rabiscos
do Pensamento
·É pelas frestas do esforço que vemos muitas
vezes mais um pouco da razão que nos alimenta a coragem p'ra continuar.
·Os sonhos são o escape da alma, face a
realidade. A realidade, é o tempo de que dispomos para realizar os sonhos.
·Tatuamos muitas vezes a alma com sonhos, para
que a realidade não seja tão sem cor.