Era um fim de tarde do mês de Novembro. Um sábado, mais
precisamente. Podia ser um dia igual a tantos outros dias de Novembro: frio,
com um sol pouco risonho que, aos poucos se ia perdendo no horizonte, até
chegar outra noite, que podia ser uma noite, igual a tantas outras noites:
frias, sem estrelas, escuras e, até quem sabe, solitárias.
Mas aquele não era um dia tão igual assim a tantos outros.
Pelo menos para Alana e Miguel, que embora distantes, estavam ligados por algo
que os faria estar próximos; mais próximos que aquilo que estavam, de cada vez
que trocavam mensagens, e usavam a internet como meio de comunicação.
Era nisso que Alana pensava, ao mesmo tempo que se despedia
do pai que a havia ido levar a estação de comboios e, entrava no comboio que a
levaria ao destino.
Já sentada no lugar e a caminho, entre trocas de mensagens
com Miguel e músicas que ouvia pouco atenta, sabia que acontecesse o que
acontecesse, tinha feito a coisa certa. Não se arrependeria já mais daquele fim
de semana, mesmo que aquele fosse o primeiro e, quem sabia se não seria o
último.
Eram mais ou menos duas horas e meia de viajem, e quanto
mais o comboio avançava no percurso, mais aumentavam as certezas e a vontade de
finalmente chegar ao destino e, junto de Miguel, que ainda sendo fisicamente
desconhecido, era, para Alana, alguém que ela conhecia, e em quem sabia que
podia acreditar e confiar.
Logo que o comboio entrou na linha e parou, Alana saiu,
sorridente e expectante… E Abandonando a plataforma, ficou à espera de vê-lo
chegar para a vir buscar e irem para casa.
Enquanto esperava, pensava no que lhe diria, como agiria.
Era estúpido pensar naquilo, porque ela fora com ele, desde o começo, ela
própria, a mesma de sempre e, naquele momento não fazia sentido ser diferente.
Mas a verdade é que sempre fora insegura, e as dúvidas assaltavam-na agora que finalmente
se encontravam.
Miguel finalmente chegara, com passo apressado, alguns
minutos após ela chegar. Vinha seguro e calmo; aparentemente, tal como lhe
dissera, à vontade com a situação.
Cumprimentaram-se e puseram-se a caminho de casa. Durante o
percurso, inicialmente pouco falaram, mas depois a conversa já ia fluindo, com
mais naturalidade entre eles.
Quando entraram em casa dele, Miguel apresentou-lhe o espaço
e no quarto, por sugestão dele, Alana acabou por deixar as suas coisas,
seguindo-o logo após para o escritório.
Era bom, diferente e, pensava ela: um voto de confiança,
estar ali com ele, vê-lo num espaço só dele, poder conhecer quem era mais ele,
sem suposições e ou subterfúgios.
Ficou sentada ao seu lado, por alguns momentos, ligeiramente
mais para trás e afastada, a vê-lo terminar algumas coisas que tinha pra fazer
e a pensar nas coisas que já haviam conversado, na forma como se cruzaram, no
quanto as suas vidas eram diferentes, mas ainda assim estavam ali, no mesmo
espaço, a partilhar do mesmo tempo, da companhia um do outro, aparentemente,
ambos sem qualquer tipo de arrependimento e sem quaisquer promessas de depois
que pudessem ou devessem fazer um ao outro.
Assim que terminou o que tinha p’ra fazer, Miguel, chegou-se
meigamente para junto dela e enquanto falavam sobre a viajem, o trabalho, entre
outras coisas, segurou-lhe as mãos.
Depois de alguns instantes, abraçaram-se e beijaram-se.
Primeiro um beijo tímido e depois um beijo mais urgente, exigente.
Estavam por hora esquecidos os pensamentos e os motivos que
os faziam estar ali, entregues um ao outro, entretidos com o que queriam e
precisavam. Naquele momento precisavam-se e, isso era tudo o que no momento
importava.
Miguel passou-lhe as mãos pelo corpo, ainda sobre a roupa e
deixou que ela lhe fizesse o mesmo. Podia ver, mais que sentir, que ela não era
uma modelo, nem incrivelmente esbelta, mas era natural e, era dele e para ele,
enquanto ele a quisesse.
Ajudou-a a tirar a roupa, enquanto ela lhe fazia o mesmo e
assim, esquecidos de tudo, desfizeram-se do pouco que os separava fisicamente.
Alana, queria-o, desejava-o. Queria dar-lhe o melhor de si,
proporcionar-lhe momentos incríveis e sabia que só assim teria ela também os
seus momentos tão desejados.
Deram-se as mãos, as línguas, os lábios, os corpos, os
sexos. Falava o desejo e, as suas respirações, que nos momentos certos
evidenciavam o prazer que tinham.
Naquele momento, entre posições que escolhiam, propostas
ardentes que se faziam, não importava mais nada que sentir com o corpo, com a
pele. Tudo o que fosse mais que isso, se existisse, era um depois longínquo,
que não sabiam se chegaria algum dia.
Alana, procurava dar a Miguel todo o prazer que conseguia,
tocando-o e acariciando-o com a língua e os dedos; provocando nele toda a
vontade, para que ele depois a possuísse, a tivesse, a fizesse sua. Ela queria
e precisava saboreá-lo, senti-lo: o seu calor, o gosto, o cheiro - tudo nele a
impelia, chamava-a. Assim que Miguel a penetrou, Alana entregou-se por inteiro
e deixou que ele a fizesse sentir mais do desejo que ele sentia.
Sem importar propriamente o lugar onde estavam e para onde
iam depois, saíram do escritório, onde tudo começara, e foram para o quarto.
Continuaram entregues ao prazer na cama de Miguel, onde, depois de tudo,
ficaram a conversar durante alguns momentos e a brincar com a gata Poopsy, que
finalmente resolvera aparecer e dar-se a conhecer à visitante desconhecida, com
quem pareceu não ter qualquer tipo de antipatia.
Mais tarde, depois do jantar que partilharam, voltaram
juntos para a cama, e assistiram a um filme até lhes dar o sono. Mas antes de
dormir, Miguel, tal como lhe prometera, fez a pergunta já esperada, e à qual Alana
sentia que não podia ou não devia responder, pelo menos não naquele momento.
-Já passa da meia-noite
e é Domingo. Disse que te perguntaria hoje e, pergunto: gostas de mim?
-Hoje, não falamos de
coisas sérias, pode ser?
-Hoje é um dia tão
bom como outro qualquer, p’ra falarmos de coisas sérias. Eu sei a resposta;
mas, quero ouvir de ti.
-Oh Miguel, esquece
isso, vá lá. E se sabes a resposta, porque queres tanto que te a diga?
Combinámos que não iríamos dar importância a isso e, a minha resposta, não iria
mudar nada.
-Não combinei nada. E
é claro que isso é importante. E se muda ou não muda, não se sabe.
-Porquê? Porque é que
queres tanto saber?
-Porque sim.
- Ah, porque sim…
Alana então sorriu-lhe e a única coisa que ele ouviu com o
sorriso dela, foi o silêncio. Ela não o verbalizaria, ela não lho diria. Por
medo, por insegurança, por qualquer coisa que ela não sabia definir. E também
não importava. O que ela sentia, se é que sentia, era dela, só dela, por
enquanto, ou para sempre, mas não importava. E se ele realmente sabia a
resposta, teria de contentar-se em saber apenas o que julgava saber.
Adormeceram sorridentes e despreocupados. Estavam ali, na
primeira de duas noites que passariam juntos, entregues a si mesmos, cada um
com os seus pensamentos, com as suas ideias, com as suas coisas. Muito
diferentes, mas ainda assim, por hora, funcionais.
Horas mais tarde, Alana despertara devido a um som
desconhecido que ouvira, mas manteve-se ainda assim junto de Miguel a vê-lo
dormir e à espera que o sono voltasse. Enquanto se perdia em pensamentos e
lembranças das horas em que já ali estava, via-o ter um sonho mais agitado e,
acabava alguns momentos depois por senti-lo acordar e ouvi-lo perguntar-lhe se
ela estava bem; ao que ela respondeu afirmativamente. Trocaram mais uma ou duas
perguntas e acabaram por voltar a entregar-se um ao outro, como o tinham feito
horas antes.
Não eram precisas palavras. Os seus risos, os seus corpos e
o calor entre eles evidenciavam a vontade que tinham e o desejo que os levaria
ao prazer.
Enquanto uniam as bocas, tocavam-se acariciavam-se
intimamente sem pensar em mais nada.
Miguel sabia dar-lhe prazer de uma forma triunfante e
dominadora – característica que Alana apreciava nele. Era um amante com muita
perícia e com um desejo cativante.
Ele sentou-a na cama, de costas para ele e, o corpo dela era
naquele momento todo dele. Tocava-a, acariciava-a e fazia sentir coisas que ela
sabia não mais esquecer. Estava nos seus braços, encostada ao seu peito quente,
em plena madrugada – momento em que todos os segredos dos amantes se encerram e,
aquele encerrar-se-ia quando voltassem a vida que tinham separados.
Mas sem pensar no depois, Alana queria-o. Queria dar-lhe
prazer e o melhor de si, ser sua enquanto pudesse ser.
Assim que Miguel a libertou dos seus braços, voltou a
deitar-se ao lado de Alana e, de forma carinhosa e atrevida proporcionou-lhe
momentos de êxtase e paixão, que ela retribuiu satisfeita, sentando-se logo
depois ao seu lado e, sentindo nas mãos e nos lábios, a sua virilidade, todo o
desejo que pulsava nele, que se mantinha relaxado, deixando-a desfrutar e
obviamente desfrutando daquele momento que partilhavam.
Momentos entre eles, enquanto ali estivessem juntos, seriam
sempre feitos de palavras sorrisos, e entrega e, foi isso que aconteceu, logo
que ambos se sentiram satisfeitos e refeitos de mais um momento intenso entre
eles.
Sorriram um para o outro, e entre expressões atrevidas e
comentários engraçados, acabaram por adormecer.
Miguel, abraçou Alana e ela, deixou-se ficar entre o sono e
o sonho, a ouvir a respiração dele, o bater do seu coração e a pensar que se na
manhã seguinte tudo acabace entre eles, tinha valido a pena chegar ali, estar
com ele, e mais que saber, sentir que por de trás da pessoa que ele mostrava
ser, havia alguém muito melhor, muito maior.
Por de trás do Miguel aparentemente frio e desapegado de
quase tudo, havia um Miguel muito mais humano, meigo, atencioso, preocupado,
carinhoso e capaz de coisas inesquecivelmente positivas.
Quando acordou, na manhã seguinte, Miguel desejou-lhe bom
dia, que ela retribuiu ensonada, e foi para o seu escritório fazer algumas
coisas. Deixou-a dormir por mais algum tempo e aproveitar o calor da cama que
tinham partilhado. Era como sem que ele ali estivesse, mesmo assim ali
continuasse para a abraçar.
Mais tarde, quando acordou, Alana passou pelo escritório,
deu-lhe um beijo rápido de bom dia e foi tomar banho. Quando ficou pronta,
voltou para junto de Miguel e manteve-se quieta, sentada no lugar onde estivera
a vê-lo trabalhar no dia anterior.
Eram poucas as palavras que trocavam, mas não era preciso
falarem. A companhia e amizade que partilhavam, bastava-lhes. Enquanto não
falavam e ele se concentrava no que fazia, Alana aproveitava para escrever
alguns dos seus pensamentos no bloco de notas do telemóvel. Era bom, pensava
ela, ter para onde deixar escorrer algumas das coisas que pensava e sentia
naquele momento. O seu pensamento e coração pareciam embrenhados num turbilhão
de pensamentos, sentimentos e sonhos que a faziam escrever coisas que, sabia
ela, levaria consigo quando a manhã chegasse e ela voltasse para casa – as
mesmas coisas que leria, quando a saudade fosse a sua única companhia no outro
lado da cama, nas horas mais solitárias que viveria, nos abraços que não
sentiria e, quando recordasse todas as coisas que vivera até então, com Miguel.
Entre festas à Poopsy que depois de as receber, corria
despreocupada por toda a casa, Alana escrevera: (Se dizer adeus for amar, que
haja vento pra que parta e, que haja vida para que te veja sorrir. Se hoje não
for mais que hoje apenas; então hoje só quero que seja o tempo suficiente para
gostar de ti o tanto que puder gostar. E se saudade for tudo o que de nós levar
quando for, que no meu lugar te deixe amor, que em mim, tu sabes, nada ocupa o
teu lugar.)
A manhã estava quase no final, quando Miguel tomou um banho,
vestiu-se e saiu. Pensara em levar Alana consigo a fim de irem comprar algo
para o almoço, mas achou melhor não, porque ela ainda tinha os cabelos molhados
e com o frio de outono que estava, ainda corria o risco de ficar doente e isso,
ele não queria. De qualquer forma ele seria rápido e em pouco tempo, estaria de
volta.
Antes de sair beijou-a nos lábios. Fora um beijo rápido e
suave mas que a deixara a pensar.
Ele era por vezes tão intransponível, tão fechado em si
próprio, tão difícil de ler. E depois Beijava-a daquela maneira, ora suavemente
ora de forma exigente. Cada beijo dele era indescritível, doce, até viciante.
Lembrava-se de já ter tido, durante o tempo que estavam ali juntos, vontade de
lhe pedir mais um beijo, mas faltara-lhe a coragem. Tinha medo de pedir demais,
de gostar demais, de querer demais dele, e não conseguia evitar de se sentir
assim. Ele sempre lhe dissera toda a verdade do que eram e do que viveriam.
Sempre lhe dissera que eram importantes e até especiais, mas não lhe garantira
nada. E ela, também não lhe pedira nada, não esperava nada. Estariam juntos
ali, naquele momento só deles, mas o futuro, seria isso mesmo: futuro – para ambos
totalmente desconhecido.
Ao ouvir a porta a abrir-se, Alana viu Poopsy
correr na direção da entrada, como se fosse dar as boas vindas ao dono que
chegava. Não conseguiu deixar de sorrir ao descrever o comportamento da gata e
Miguel também não deixou de sorrir com o comportamento que o animal tivera em
relação a si.
Passaram a tarde de domingo tranquilamente. Almoçaram e
depois deitaram-se na cama a ver um filme.
Quando o filme acabou dormiram por algum tempo e quando
acordaram, deitaram conversa fora, sobre os mais variados temas. Entre eles,
desde o primeiro dia, estranhamente, poucos eram os assuntos que não falavam. Alana
gostava de o ouvir falar sobre os mais variados assuntos. Gostava das suas
ideias, das suas opiniões e sobre tudo, gostava muito de o ouvir falar sobre os
trabalhos que ele fazia, sobre as coisas que investigava e os artigos que
escrevia. Era para a jovem intrigante e excitante saber cada vez mais um pouco
dos riscos que ele corria, das aventuras que vivia e, da coragem e cabeça fria
que era preciso ter e manter para realizar o trabalho que ele realizava. Era
bom vê-lo vibrar com os resultados do seu trabalho e sentir com ele essa
satisfação. Era bom estar com ele, junto dele, ao seu lado; e essa era a única
coisa que era permitido sentir naquele momento.
Quando a convite de Miguel, combinaram aquele fim de semana,
Alana prometera-lhe uma massagem que não ficaria esquecida.
Assim, depois de jantarem, entre conversas indiscretas e
provocantes, ela fez-lhe a massagem que lhe prometera. Massajou-lhe pés,
pernas, costas e braços. Esforçava-se por fazê-lo relaxar e ainda que
secretamente, gravava na sua mente, cada centímetro do corpo dele. Não queria
esquecer a textura da pele, o cheiro, o calor. Não queria nem podia esquecer as
mais pequenas coisas que ele lhe deixara ver e sentir.
Quando a massagem terminou, em jeito de provocação, Miguel
perguntara-lhe que mais coisas havia para massajar, que tipos de massagem é que
Alana conhecia. Ela, fingindo não reconhecer a provocação na pergunta dele,
falou-lhe dos tipos de massagem que podia aplicar e em que zonas eram eficazes.
- Mas, Miguel, queres
que te massaje em mais algum local que não tenha massajado? AS mãos, por
exemplo.
- As mãos?
- Sim. Queres?
- Não, deixa estar.
Como Alana percebera a provocação por de trás da pergunta
relacionada com os tipos de massagem, chegou-se para mais perto dele e começou
a tocar-lhe de forma provocante, demonstrando que o entendera e que o queria,
mais uma vez. Talvez a última vez.
- Eu não sei se
devemos, Alana…
- Shhh.
Alana colocara por momentos os seus lábios nos dele e depois
disse-lhe sorrindo suavemente: - Não há motivos para não acontecer. Estamos a
chegar ao fim… Dentro de horas não estarei aqui. Não há nada de que nos devamos
arrepender.
- Eu não quero que
sofras, Alana. Eu só não quero mesmo que sofras se…
- Shhh. Não há nada
pra pensar agora. O futuro por muito que o vivamos, neste momento não temos
forma de o saber. E se só existimos juntos hoje; pois então, que assim seja e
hoje aconteça!
Ela não queria pensar no depois e Miguel tentava não pensar
no depois. Só o momento que viviam é que importava. Foi isso que ela lhe
dissera e era a isso que ele se agarrava.
Abraçaram-se e Miguel puxou-a mais para si. Colocando o
corpo dela sobre o seu corpo, tocava-a e acariciava-a até a sentir pronta para
recebê-lo dentro de si. E quando isso aconteceu, ele penetrou-a e deixou que
ela desfrutasse com movimentos ritmados e cada vez mais urgentes, do prazer que
era senti-lo dentro de si e assim, atingisse o clímax.
Ainda não totalmente satisfeitos, abandonaram a cama e
entregaram-se ao prazer noutra posição. Miguel colocara as mãos dela na parede,
e enquanto lhe segurava o peito, possuiu-a com perícia e movimentos urgentes, até
ao momento de juntos explodirem em desejo.
Já cansados, de respirações ofegantes e suados, tomaram um
banho e sem saber o que dizer mais, sentiram estar na hora de se entregarem aos
seus próprios pensamentos. Alana deitou-se na cama na tentativa de fugir do
frio que sentia. E Miguel, fora até ao escritório e refugiava-se no trabalho e
nas responsabilidades para, por algum tempo, não pensar no que acontecera, nela,
que estava deitada no quarto ao lado no mais pleno silêncio e nele, que se
sentira bem com ela, mas e até que ponto estaria pronto para se entregar? Não
lhe fizera promessas de que assim seria, nem ela lhas pedira. A única coisa que
se haviam prometido era serem um do outro durante aquele tempo que passavam
juntos e, serem sempre sinceros um com o outro.
Não era amor o que os fazia estar ali e, até funcionar
estranhamente de alguma forma. Talvez fosse um tipo de paixão, cumplicidade,
carinho, confiança. O que era, nenhum deles sabia; mas era algo bom, real, puro
e por vezes forte.
Eram amigos – bons amigos. E se haviam coisas que queriam
preservar entre eles, a amizade que já há muito que tinham, era uma dessas
coisas. Mas ele sabia que ela gostava dele. Ela nunca dissera nem sim, nem não,
mas gostava. Ele podia sentir isso nos seus comportamentos, nos seus gestos, na
sua entrega. O sentimento que ela nutria por ele, assustava-o um pouco, pois
era fundamental que ela não sofresse. Ele queria vê-la bem e feliz e jamais
triste ou magoada. Ele queria o melhor para ambos e por vezes não sabia se
entre eles as coisas funcionariam sempre bem; mas também quem saberia isso? O
futuro é sempre tão inesperado. Enquanto lutava com a sua própria
desconcentração no trabalho e contra os pensamentos que o assaltavam,
manteve-se em frente ao computador por mais um tempo a tentar trabalhar.
Alana, deitada na cama, não sabia o que pensar, o que dizer,
o que fazer. Via o tempo deles a chegar ao fim e só de pensar nisso, apetecia-lhe
parar o tempo, o mundo, a vida. Apetecia-lhe pedir que ele não lhe dissesse
adeus amanhã, que a segurasse nos braços, que a quisesse mais uma vez, que lhe
dissesse que tudo iria ficar bem, eles iriam ficar bem. Mas não seria assim,
não podia ser assim. Na manhã seguinte ela partiria, voltaria para casa e ele,
ficaria no seu próprio mundo, com o seu trabalho, os seus sonhos e os seus
projetos; até um dia o futuro lhes dizer quais eram os seus lugares reservados
na vida de cada um deles.
De duas coisas ela tinha a certeza. A primeira era que
estava completamente apaixonada por Miguel; e a segunda era que poder-se-ia
arrepender de muitas coisas, mas já mais de ter vindo ao seu encontro.
Quando Miguel se fora deitar, parecera-lhe tê-la ouvido chorar.
- Estás a chorar!
Alana fez que não com a cabeça e fê-lo lembrar-se que ela
estava um bocado constipada.
- Oh, Miguel, não
estou nada a chorar. Estou constipada, esqueceste-te?
- Estás sim, a
chorar!
- Não, não estou nada.
E tu, estás bem?
- Estou.
Respondeu-lhe tentando colocar firmeza na voz, mas não conseguindo grande
sucesso nisso, deixando assim que ela percebesse que ele não estava tão bem
como o que queria fazer parecer.
- Mentiroso! Disse
lhe ela logo depois. Não estás bem coisa nenhuma.
- Estou sim. E
mentirosa és tu, que estás a chorar e dizes que não!
- Oh, cala-te…Eu não
estou a chorar. Estou só constipada e, bem sabes tu disso!
- E eu estou bem, já
te disse!
- Ah, sim… estás bem.
É tão verdade tu estares bem, como é verdade eu estar a chorar, não é?
- É, deve ser…
- Miguel és um
mentiroso…
- Alana, e tu és
mentirosa…
Sorriram um para o outro e ele abraçou-se a ela. Era hora de
dormir. Fosse quem fosse o mentiroso, era o que menos importava, afinal
teimosia era coisa que em ambos sobrava e daquela forma não chegariam a
conclusão alguma.
Chegava a manhã de segunda-Feira. O despertador tocara e
ambos acordaram. Deram bom dia um ao outro e Alana saiu do quarto em direção à
casa de banho para tomar um duche e vestir-se. Logo que voltou, foi a vez de
Miguel, que fez o mesmo. Enquanto ele se preparava, a jovem arrumara as suas
coisas e olhava o relógio. O tempo passava tão depressa. Parecia-lhe ter
acabado de chegar e já ia embora.
Quando Miguel voltou ao quarto, viu-a já pronta e acabou
também ele de se arranjar. Ia levá-la a estação de comboios.
- Alana?
- Sim?
- Estás bem?
- Estou. E tu?
- Também.
Miguel aproximou-se dela, fez-lhe uma festa na cara e
perguntou-lhe se tinha gostado de estar ali; ao que ela respondeu afirmativamente,
com um sorriso.
Abraçaram-se e dessa vez, para a jovem fora-lhe difícil
conter as lágrimas que queriam sair-lhe dos olhos, denunciando o vazio que
começava a apoderar-se dela.
- Bem, Alana, vamos?
Ela fez que sim com a cabeça e com uma festinha, despediu-se
de Poopsy, que se mantinha aparentemente e completamente alheada de tudo o que
acontecia.
Quando saíram de casa dele, Alana e Miguel caminharam de
mãos dadas e em passo tranquilo até a estação de comboios. Durante o trajeto,
falaram do local onde se situavam alguns estabelecimentos, entre eles a igreja,
que estranhamente naquela manhã tinha a porta fechada. Comentaram algumas coisas
do fim de semana que tinham tido e quando não sentiram não ter mais a dizer,
também não preencheram o tempo com banalidades. Alana sentia que era tão fácil
estar com ele, mas ainda assim havia sempre aquele sabor a fruto que não era
proibido, mas talvez fosse sabor a um fruto que ela não sabia se tinha o
direito de provar mais alguma vez.
A hora chegava, e já sentados num banco na plataforma de
embarque sentiam os raios de sol que os tocavam - um sol quente e brilhante
naquela manhã que parecia começar a ficar tão cheia de ausências e tão cheia de
lembranças.
Quando a encarou, Miguel apercebeu-se que ela se perdera em
pensamentos. Parecia manter um sorriso fraco, baseado em algo que recordava.
Sempre quisera saber das coisas que ela pensava – as coisas que lhe iam na
alma.
- Em que pensas? Deve
ser bom. Estavas a sorrir.
- Ah, ainda vais
querer saber das coisas que eu penso?
- Claro. Eu quero
sempre saber… de tudo…
- Ah, sim. Mas neste
momento, penso no fim de semana.
- Hummm, okay…
Enquanto ouviam nos altifalantes as informações relativas ao
comboio em que ela embarcaria, Miguel abraçou-a mais uma vez, beijou-a e
fez-lhe uma festa no rosto e nos cabelos. Tinha sido bom tê-la ali, tinha sido
bom estar com ela; mas Alana voltava agora para casa e ele voltava para casa e
para a vida dele, sem ela.
O abraço deles terminava e, Miguel acompanhava-a até junto
do grupo de pessoas, que como ela embarcariam no comboio que entraria na linha
em poucos minutos.
- Ficas bem?
Perguntava-lhe ele verdadeiramente preocupado.
- Sim, não te
preocupes. Fico bem. E tu?
- Eu fico sempre bem…
- Ah, pois, claro...
Ele ficaria sempre bem. Ele seria sempre forte. Ele nunca
demonstraria o que sentia, nem mesmo a ela, que só lhe queria bem. Ele era mais
que o que demonstrava e sentia mais que o que muita gente poderia ou
conseguiria imaginar, disso ela tinha a certeza; mas ele nunca deixaria isso
transparecer. E ele não era assim por vergonha; mas sim por defesa.
- Adeus, Miguel…
- Adeus, Alana. E
quando chegares, diz alguma coisa.
- Sim. Prometera-lhe
ela enquanto lhe sorria uma última vez e se debatia com a vontade de chorar,
que quase a vencia. Ali mesmo, diante dele e no meio de tantos desconhecidos.
Quando a jovem embarcou, ele disse para si mesmo mais uma
vez: - Adeus Alana. E ainda que em pensamento, desejou-lhe mais uma vez boa
viagem.
Foi quando o comboio arrancou que Miguel se foi embora para
casa. No pensamento levava Alana e o que vivera com ela e, a certeza que só ao
futuro pertencia o rumo daquela história.
(Cheguei a casa. A viagem correu bem. Um beijo.)
Escrevera-lhe ela numa mensagem, tal como tinham combinado. (Tua Alana), Foram
as palavras que deixou por escrever. Como resposta Miguel enviara: (Que bom. Sã
e salva. Um beijo). Se ficaram da parte de Miguel, palavras por escrever, só o
futuro o dirá…
Ao ler a resposta, Alana adormeceu. Deixara com ele a
vontade de sonhar de novo e trouxera consigo a certeza que com ele vivera um
sonho.
Só se vive uma vez, mas sonhar sonha-se enquanto se vive. E
viver é sempre em direção ao futuro – um caminho desconhecido, com paragem no
inesperado.
*