segunda-feira, 24 de março de 2014

2º Encontro de Escritores Algarvios e eu presente, pela 1ª vez

 

No passado Sábado, 22 de Março de 2014, aconteceu em São Bartolomeu de Messines, no concelho de Silves, o 2º encontro de escritores algarvios, promovido pela Arandis Editora, em parceria com a junta de freguesia, no âmbito das comemorações da vida e obra de João de Deus.

A convite de uma amiga de há já muitos anos, a Paula França, a quem imensamente agradeço a oportunidade e o desafio, estive então presente neste segundo evento, que para mim foi e é o primeiro em que estive como escritora, poetisa e, às vezes fadista.

Senti-me sempre muito bem-vinda e sobre tudo, rodeada de excelentes pessoas, num ambiente repleto de arte e cultura.

Cheguei sem saber o que esperar, totalmente a medo, uma vez que sou nova neste fabuloso mundo da escrita, mas saí com a certeza que havia feito a escolha certa quanto ao caminho a trilhar; e mesmo sabendo que não é fácil, não deixa de ser, ainda assim, possível e gratificante!

Muito embora já escreva desde há muitos anos a esta parte e, desde cedo tenha descoberto o meu gosto por escrever poesia e histórias e, tendo por isso participado durante o meu percurso escolar em alguns concursos a nível das escolas que frequentei e, em uma tertúlia de poesia organizada numa das galerias da Câmara municipal de Albufeira, no ano de 2003, esta foi, ainda assim, a minha primeira presença num evento tão abrangente como este.

 

Foram horas repletas de boa disposição, convívio, partilha de experiências e sabores tradicionais.

Escritores, leitores, músicos, cantores, juntaram-se para horas de dar e receber as melhores coisas que temos no que à cultura e arte diz respeito.

 

Foi um dia que mais que ter o sabor de promessa, teve, sobre tudo, sabor a concretização.

Ao lado de nomes como Manuel Neto dos Santos – Escritor e Poeta Algarvio, a quem, desde já quero igualmente agradecer pelos momentos de partilha e ensinamento que me proporcionou, de, para mim, um valor incalculável, e, Sérgio Brito – um dos fundadores da Arandis Editora, que atenciosamente se disponibilizou a ler e conhecer o trabalho que tenho vindo a tentar concretizar, a bastante custo, até aqui.

 

Agradecimentos sinceros, prós mês amigues e moces marafades do grupo FÁSSEBUQUE ALGARVIE e não só:

Paula frança – que tornou este momento possível e, uma realidade!

Sérgio Brito – Que me abriu uma porta para a possível concretização de um sonho!

Manuel Neto dos Santos – que partilhou comigo esta alma de escritor e poeta!

Isabel Neto Neto – Que compreendeu e entre histórias e risos me ensinou mais desta língua que é o algarvio!

Ana Cristina e Alice, com quem também partilhei horas deste dia e com quem troquei histórias, experiências e muitos risos!

E a todos os outros nomes, desde escritores, fadistas e músicos com quem tive o prazer de conversar.

 

A todes o mê munte obrigada. Amecezes forem todes cinque estrelas!

E come prometi, Lance em breve, aqui no blogue, um poema em Algarvie!

 

*

 

quinta-feira, 20 de março de 2014

O Complexo Sentido de Sentir

 

Sim, eu sinto. Sinto tudo, ou nada, mas sinto. Mas só às vezes. Não quando quero, não quando a vida me pede que sinta, mas sim quando a vida faz de tudo para que eu sinta. E eu gosto do que sinto, quando sinto, mas só de verdade.

Então, às vezes, eu sinto que te amo. Não só porque te digo que te amo, mas sim, porque sinto que te amo. E é por isso que te digo: Amo-te, mas, só às vezes.

Então, às vezes, eu digo que dói. E não é só porque às vezes choro que digo que dói. Eu digo que dói porque sinto, da superfície de mim até ao fundo do que sou, que dói, mas, só às vezes.

Então, às vezes, eu sinto vontade de rir e, riu muito. Riu enquanto posso e não posso, riu por tudo ou por nada, mas só às vezes.

E então, às vezes não sinto. E quando não sinto não digo. E quando não digo que sinto, é porque não posso dizer - não sinto p’ra dizer

 

Eu gosto de sentir. Eu gosto do que sinto. Não sempre. Só às vezes.

Sentir sempre é esperado, é fraco, é comum e, eu gosto do incomum, do inesperado, do que é intenso, forte, avassalador. Daquilo que vem do fundo de nós e nos agita, transforma, marca. Por isso eu sei que só gosto de sentir, mas sentir verdadeiramente, às vezes., não sempre, mas sim, às vezes.

Porque não há essa coisa de sentir sempre. Ninguém sente sempre, quando é p’ra sentir de verdade, com intensidade, no verdadeiro sentido do que é sentir.

Gosto de sentir quando ninguém sente, quando ninguém espera; nem mesmo eu. E é por isso que eu gosto de sentir. Porque não sentia e agora sinto. Sinto mais, sinto tudo, sinto, na verdadeira complexidade da palavra sentir, mas só agora. Não antes nem depois. Só agora, por agora.

 

E é só quando sinto, mas só quando sinto mesmo, que me ouves dizer que sinto, que sabes que sinto. Então, por favor, Não me peças que diga o que eu não sinto, quando não sinto.

Que se eu não sinto, juro. Não sei dizer.

 

*

 

domingo, 16 de março de 2014

Pontas Soltas

 

Fechei a porta atrás de mim e,

vou-me embora.

O relógio de pulso não funciona, mas estou com tempo.

O bilhete, no bolso de traz das jeans é só de ida,

porque voltar, não é plano que leve comigo, agora que parto.

 

Deixo a chave no fundo do bolso, propositadamente esquecida.

Quero esquecer todas as histórias até então vividas;

é que escrevi a lápis de carvão uma vida inteira,

num caderno que me pertencia.

Só que a vida, descobri:

já não me cabe num caderno;

e as marcas de quem fui: já não há

espaço no peito, para que as guarde;

e os planos que fiz, perderam a razão de ser, até

mesmo, quando os escrevi a lápis de carvão.

 

O pouco que sei é

o único mapa que tenho.

A viajem é longa, mas vou fazê-la.

Há pouco que cá fica, que cá me prende e,

tudo o que sei até hoje já não basta;

porque de todas as respostas que precisava, poucas me deram; e

de todas as certezas que tinha, só meia dúzia me sobraram.

 

Levo escrito na palma da mão o nome e,

um passado sem rosto que me pertenceu.

Pontas soltas não deixo, porque os laços

Há muito que se desfizeram.

As amarras eram um cais sem lugar para mim,

porque talvez fosse eu, de lugar nenhum; qual barco

à deriva, nas ondas de uma vida sem portos de abrigo seguros,

para onde voltar.

 

Há um raio de sol que se me coloca sobre os ombros.

Talvez seja o último abraço

de quem me viu crescer.

Resta-me o conforto das não recriminações que

este abraço não me diz e,

resta-me, sobre a mesa de padrão complicado, que

acompanho distraída com os dedos, o

último café quente que tomo neste lugar, onde tantas

Vezes vi chegar novos dias e,

tantas noites que,

já sei: apagar-se-ão da minha memória,

Com o tempo.

 

Observo estranhos e carros, rumo

às suas próprias vidas.

Atravesso a estrada, e olho mais uma vez, por segundos,

a mesa onde estivera e,

o rosto que me deu um sorriso como moeda de troca, pelas

minhas moedas, que lhe dei p’ra pagar o café.

Não disse adeus ao vir-me embora.

Não disse nada, foi melhor assim.

Deixei as despedidas p’ra trás, como

p’ra trás ficaram planos

e cadernos cheios de palavras, que um dia

me serviram de almofada,

para encostar todos

os sonhos que não pude concretizar…

É que os sonhos são sempre livres, as realidades nem sempre são.

 

Sinto o vento a remexer-me os cabelos.

Não sei se é uma festa que me faz

de encorajamento ou, reprovação…

É que amanhã o lugar é outro, onde estarei;

mas a vida é a mesma,

eu sou a mesma…

O que eu sinto é que talvez, não.

 

*

 

quinta-feira, 13 de março de 2014

Moldura de Lembranças

 

Olhas-me, solene, do alto da estante. Pareço-te, quem sabe, pequena à vista; quem sabe se também ao coração. Mas não sei, ninguém sabe; e nem tu, poderás dizer-mo;

porque foste embora e, hoje és só toda uma vida impressa numa fotografia, que me fita impávida, do alto da estante, onde também moram com os livros de capas rijas e austeras, todos os sonhos que tive contigo, que construí ao teu lado, que alimentamos de mãos dadas e, que se desvaneceram quando deixaste de seres quem eras, para passares a ser a fotografia que mantenho o mais perto que suporto, se é que suporto – sei lá.

 

Vejo-te do sofá e perturba-me o teu ar passivo. A moldura onde ainda permaneces desde que te foste, parece uma atmosfera segura e intransponível a todas as incongruências da vida.

ÀS vezes tenho a sensação de que desde que te vi dizeres adeus a tudo, com um ar de quem já não suporta nem mais um segundo de tudo o que nos faz doer e nos aprisiona, o que era efémero na tua existência, transformou-se em permanência em todo o esplendor de ser e acontecer. Pareces mais forte, quando comparativamente a mim, que te vejo do sofá, e ainda me vejo às voltas com as mais simples questões da vida humana, como um todo, ou como apenas uma só pessoa. Mas foi sempre assim, se bem me lembro.

 

Dou por mim a relembrar que construímos sonhos e desenhámos realidades de uns dias para os outros. Fui-me tornando mais eu, mas mais forte dia após dia, porque existias; e até existes – és lembrança, que às vezes é tanto, outras vezes tão pouco.

 

Fazes-me falta e és silêncio; e eu queria saber ler o silêncio, como li nos teus olhos tudo o que te consumia; aquilo que aos poucos te apagava o rubor da face e a fluidez que demonstravas ter nos gestos e nos passos que davas rumo ao futuro que ambicionavas; os mesmos passos que me deram coragem para ser quem sempre quis ser.

E é por tudo isto, que às vezes, nem sei se te odeio, se odeio o motivo por que partiste.

Ou melhor, eu nem te odeio. Amo-te é demasiado, para ainda hoje, depois de tanto tempo, não sentir que faz sentido o motivo por que partiste.

Partiste e é tudo. É tudo, coisa nenhuma! Tudo foi o que se acabou quando me morreste; e nada, foi o que ficou depois de ti, depois de nós.

 

E esta fotografia, a tua, que me fita, é tristeza.

E esta lembrança, de ti, que me resta, é saudade.

E esta solidão, que me faz olhar-te, é medo.

E estas demais linhas que te escrevo, é de tudo o que dissemos, a única marca que ainda abraço e transformo em palavras, diante o teu retrato sem vida, como sem vida ficaram os meus sonhos, os teus passos, os nossos abraços, o teu sorriso, que já não ouço chegar a mim, vindos de um outro lugar desta casa, onde cada dia passa incólume, como incólume passa toda a vida, que me deixaste para que vivesse, mas desde então, só diante o teu silêncio e os teus olhos, que pudesse eu adivinhar o que me diriam, se falacem comigo agora, nem que fosse pela última vez.

 

*