sábado, 7 de dezembro de 2013

Aguenta

 

Aguenta; aguenta forte, firme, hirto.

Aguenta agora, por agora, enquanto puderes. Aguenta porque tu aguentas, hoje, agora, sempre, para sempre. E quando não aguentares, lembra-te de tudo o que já passaste, aquilo que já foste, todas as coisas que aguentaste e, aguenta então mais uma vez.

Porque é só mais uma vez, é sempre só mais uma vez e outra vez e mais outra vez - as vezes que forem precisas para veres que tu aguentas; custa-te, mas aguentas.

 

E se um dia não aguentares: respira - inspira e espira; porque tu sabes que se respiras é porque aguentas; e se aguentas, então sabes que és capaz de aguentar sempre mais outra vez; só mais uma vez.

 

*

 

 

Até quando

 

Vá! Força! Coragem!

Parte a louça toda, desata os laços e as amarras que te prendem; grita, mostra-te, não te anules mais! Já chega, sabias? Já chega de te esconderes, de te prenderes, de seres o que esperam de ti. E tu? O que é que esperas de ti?

Só isso? Ficares a vida toda à mercê do que os outros querem, do que os outros pensam, do que os outros sentem?

Não! Basta! Porque olha, não são esses que te exigem tanto e que tanto esperam de ti, que estão dentro de ti e sentem a dor que carregas, sempre que por eles abdicas de ti mesmo e te anulas assim, nessa prisão de gritos mudos, gestos reprimidos, medos à flor da pele, sonhos esquecidos e tanto, tanto mais que tu sabes que sentes, mas calas e ignoras, relativizas como se de nada se tratasse - deixas para trás, até que seja o teu momento; se esse momento chegar.

Mas basta, porque eles, sim eles! Aqueles por quem te abandonas, até quando?

Até quando estão por ti, contigo, ao teu lado? Quantas vezes? Em que tempos? Em que situações? Será que são as mesmas em que te desprezas, em prol deles? Não! Não são, e tu sabes.

Então para! Pensa! Esquece-os… Hoje, pelo menos hoje; esquece as migalhas que te dão por favor, os sorrisos forçados que te dirigem, as palavras meigas ditas por caridade ou, porque fica bem. Hoje vive por ti, só por ti; que eles vivem por eles e até são capazes de lamentar a tua ausência, mas se vires bem, é só quando lhes fazes falta; quando a solidão deles foi a única coisa que lhes restou para além da tua leal presença, que no fundo, depois de tanta anulação de ti mesmo, nunca os deixou, mas eles nunca foram capazes de admitir ou, perceber.

 

*

 

 

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Como a Àgua que Corre

 

 

Como a água que corre, vou…

Sem destino, sem volta, sem porto ou planos de voltar - apenas vou,

de mãos nos bolsos, coração ao lado, olhar perdido.

Mapas não tenho, curso não sigo,

apegos não quero; porque viver

no desapego é mais seguro e

viver por viver faz agora, cada vez

mais sentido.

 

Como a água que corre, corro,

sem rotas, sem planos e apenas um

leito para poder em fim morrer,

à hora certa. Quando

o fim for a foz dos meus dias e

 a vida, não for mais nada do que aquilo que deixaram para mim – um rio

de sonhos e lembranças, que nem

a esperança faz com que baste p’ra ser feliz.

 

Se na água que corre me vires afundada,

não chores, que a vida

promete tanto mas é madrasta e os meus

medos e sonhos, tu sabes,

de pouco serviram ao fim de contas.

E nem os versos que escrevo são mais que pedaços

de tanto que quis ser, mas nunca fui;

de tanto que quis ver, mas nunca vi;

de tanto que quis ter, mas nunca senti.

 

Vou ao sabor da água deste rio que corre e,

não volto;

porque o que lá vai foi o tempo de antes e já não importa.

E eu, não sou tão forte como esperam que seja; e o horizonte

que me vês no rosto é tudo o que me faz

ainda ter vontade p’ra partir sem rumo,

rumo a um mar distante, onde

se afogam as lágrimas que já não choro, por não ser capaz de ficar aqui,

onde deixo todas as amarras e todos os motivos

que um dia deram sentido aos dias que passei

contigo, solidão – p’ra quem escrevo,

mas não sei, se pela última vez.

 

 

*

 

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Restos de uma Poetisa, a Louca


Perdi-me nas páginas de um livro nunca lido;
numa angústia surda, refletida em cada linha
de pensamento e realidade.
As prateleiras cheias de memórias, são os quadros
que descrevem no fundo, o que não sou capaz de dizer.
Acabaram-se-me as palavras, os gestos e a coragem.
Fiquei numa história onde ainda espero um final qualquer,
que sem ser por acaso desconheço, como
tantos outros finais pelos quais
anseio.

Não sou o troféu nem a coisa vencida;
ainda que vencida pelo cansaço me redima.
É mais fácil dizer basta que entregar-me ao que desconheço;
é mais fácil abdicar daquilo
que os olhos vislumbram, que daquilo
que só eu sei ser – a louca, talvez…

Sou o alvo dos meus erros, e os meus erros são
marcas das minhas derrotas e vitórias;
enquanto o meu olhar repousa junto da terra – a mesma onde
ainda espero chegar outra vida.
Os meus olhos e os meus braços, cansados e perdidos, procuram
ainda um novo rumo – mas não vislumbro nada…
é como ter um coração feito em peças e,
um jogo perdido, à espera de se acabar.

Há nesta chuva de outono uma calidez perturbante;
e um desfasamento tão frio como o frio que sinto;
e uma ausência tão grande como um corpo morto – o meu
que sem nada ainda procura o
fim de uma história que ainda
sinto ter forças p’ra escrever.

Mas quem sou eu no fim de contas; se
da vida não espero nada, p’ra além de escrever os livros,
nos quais possa viver mesmo depois do adeus;
e poder em fim morrer para o mundo, assim como o mundo há muito que me matou.

Daquela que ainda em mim vive e escreve, restou a poesia.
Daquela que julgo ser… já não sei o que restou.

                    *                  

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

No Teu Poema, Há um Sopro de Vida


No teu poema há de tudo - um silêncio gritante
ao por do sol de cada dia;
há um sorriso franco, onde guardas mágoas tão tuas como sempre;
há um chegar cansado a qualquer lugar que nem tu defines;
há um amar calado e inquieto que te incomoda, mas
nem tu sabes porquê…

No teu poema há um barco de sonhos
perdido em mar alto;
há a canção que cantas de olhos fechados e o
peito escuta, de braços abertos;
há um olhar – o teu – sobre a terra molhada que te viu cresceres e
seres quem tudo sente num sopro de vida, num resto
que te resta, de pás.

Há ainda, no teu poema, um rio que
solitário segue rumo a um futuro, que moldas no presente,
sem marcações na agenda de quando vai acabar,
porque o céu não te é o limite e
ainda há um lado teu, com outros poemas por inventar.

No teu poema há tão pouco – não há âncoras
que te façam ficar sem ser por ficar;
não há palavras diretas, nem promessas de infinito;
não há mais que momentos, porque momentos
são tudo o que te resta… e bastaram-te as agruras da vida,
até hoje…

No teu poema… Ah! quem dera soubesse eu tudo o que nele existe; pudesse assim
eu desvendar-te, pudesses assim, tu,
entender-me.


                    *                  

domingo, 3 de novembro de 2013

Juras Que Não São de Amor


Pintei-te o mar profundo nos olhos e
a saudade na pele.
Não me foi fácil amar-te, mas quando te amei, apercebi-me
que os papéis inverteram-se, inesperadamente, como me o havias dito que seria, com o tempo.

Guardei-te os beijos no peito, e a
timidez por entre os dedos.
Não foi fácil ter-te,
mas quando te tive, entreguei-me, inteira,
do jeito que tu sabias que eu o faria;
só eu não sabia que seria assim a minha entrega.

Depois, desenhei-te a liberdade na alma e
cantei-te a canção mais bonita que me lembrei…

Tu sabes que somos tão livres
como pássaros sem destino, mas
no momento de voltar para casa sabemos que
o lugar de ambos é sempre aqui;
onde deixamos marcadas as nossas juras que não são de amor,
nem de nada que eu ou tu saibamos contar;
mas valem de promessas cumpridas que sentimos,
quando os nossos braços se cruzam
e os nossos sussurros, que eram palavras, são agora os beijos que
a saudade nos faz sentir urgentes na pele de cada um de nós.


                    *