sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Como a Àgua que Corre

 

 

Como a água que corre, vou…

Sem destino, sem volta, sem porto ou planos de voltar - apenas vou,

de mãos nos bolsos, coração ao lado, olhar perdido.

Mapas não tenho, curso não sigo,

apegos não quero; porque viver

no desapego é mais seguro e

viver por viver faz agora, cada vez

mais sentido.

 

Como a água que corre, corro,

sem rotas, sem planos e apenas um

leito para poder em fim morrer,

à hora certa. Quando

o fim for a foz dos meus dias e

 a vida, não for mais nada do que aquilo que deixaram para mim – um rio

de sonhos e lembranças, que nem

a esperança faz com que baste p’ra ser feliz.

 

Se na água que corre me vires afundada,

não chores, que a vida

promete tanto mas é madrasta e os meus

medos e sonhos, tu sabes,

de pouco serviram ao fim de contas.

E nem os versos que escrevo são mais que pedaços

de tanto que quis ser, mas nunca fui;

de tanto que quis ver, mas nunca vi;

de tanto que quis ter, mas nunca senti.

 

Vou ao sabor da água deste rio que corre e,

não volto;

porque o que lá vai foi o tempo de antes e já não importa.

E eu, não sou tão forte como esperam que seja; e o horizonte

que me vês no rosto é tudo o que me faz

ainda ter vontade p’ra partir sem rumo,

rumo a um mar distante, onde

se afogam as lágrimas que já não choro, por não ser capaz de ficar aqui,

onde deixo todas as amarras e todos os motivos

que um dia deram sentido aos dias que passei

contigo, solidão – p’ra quem escrevo,

mas não sei, se pela última vez.

 

 

*

 

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Restos de uma Poetisa, a Louca


Perdi-me nas páginas de um livro nunca lido;
numa angústia surda, refletida em cada linha
de pensamento e realidade.
As prateleiras cheias de memórias, são os quadros
que descrevem no fundo, o que não sou capaz de dizer.
Acabaram-se-me as palavras, os gestos e a coragem.
Fiquei numa história onde ainda espero um final qualquer,
que sem ser por acaso desconheço, como
tantos outros finais pelos quais
anseio.

Não sou o troféu nem a coisa vencida;
ainda que vencida pelo cansaço me redima.
É mais fácil dizer basta que entregar-me ao que desconheço;
é mais fácil abdicar daquilo
que os olhos vislumbram, que daquilo
que só eu sei ser – a louca, talvez…

Sou o alvo dos meus erros, e os meus erros são
marcas das minhas derrotas e vitórias;
enquanto o meu olhar repousa junto da terra – a mesma onde
ainda espero chegar outra vida.
Os meus olhos e os meus braços, cansados e perdidos, procuram
ainda um novo rumo – mas não vislumbro nada…
é como ter um coração feito em peças e,
um jogo perdido, à espera de se acabar.

Há nesta chuva de outono uma calidez perturbante;
e um desfasamento tão frio como o frio que sinto;
e uma ausência tão grande como um corpo morto – o meu
que sem nada ainda procura o
fim de uma história que ainda
sinto ter forças p’ra escrever.

Mas quem sou eu no fim de contas; se
da vida não espero nada, p’ra além de escrever os livros,
nos quais possa viver mesmo depois do adeus;
e poder em fim morrer para o mundo, assim como o mundo há muito que me matou.

Daquela que ainda em mim vive e escreve, restou a poesia.
Daquela que julgo ser… já não sei o que restou.

                    *                  

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

No Teu Poema, Há um Sopro de Vida


No teu poema há de tudo - um silêncio gritante
ao por do sol de cada dia;
há um sorriso franco, onde guardas mágoas tão tuas como sempre;
há um chegar cansado a qualquer lugar que nem tu defines;
há um amar calado e inquieto que te incomoda, mas
nem tu sabes porquê…

No teu poema há um barco de sonhos
perdido em mar alto;
há a canção que cantas de olhos fechados e o
peito escuta, de braços abertos;
há um olhar – o teu – sobre a terra molhada que te viu cresceres e
seres quem tudo sente num sopro de vida, num resto
que te resta, de pás.

Há ainda, no teu poema, um rio que
solitário segue rumo a um futuro, que moldas no presente,
sem marcações na agenda de quando vai acabar,
porque o céu não te é o limite e
ainda há um lado teu, com outros poemas por inventar.

No teu poema há tão pouco – não há âncoras
que te façam ficar sem ser por ficar;
não há palavras diretas, nem promessas de infinito;
não há mais que momentos, porque momentos
são tudo o que te resta… e bastaram-te as agruras da vida,
até hoje…

No teu poema… Ah! quem dera soubesse eu tudo o que nele existe; pudesse assim
eu desvendar-te, pudesses assim, tu,
entender-me.


                    *                  

domingo, 3 de novembro de 2013

Juras Que Não São de Amor


Pintei-te o mar profundo nos olhos e
a saudade na pele.
Não me foi fácil amar-te, mas quando te amei, apercebi-me
que os papéis inverteram-se, inesperadamente, como me o havias dito que seria, com o tempo.

Guardei-te os beijos no peito, e a
timidez por entre os dedos.
Não foi fácil ter-te,
mas quando te tive, entreguei-me, inteira,
do jeito que tu sabias que eu o faria;
só eu não sabia que seria assim a minha entrega.

Depois, desenhei-te a liberdade na alma e
cantei-te a canção mais bonita que me lembrei…

Tu sabes que somos tão livres
como pássaros sem destino, mas
no momento de voltar para casa sabemos que
o lugar de ambos é sempre aqui;
onde deixamos marcadas as nossas juras que não são de amor,
nem de nada que eu ou tu saibamos contar;
mas valem de promessas cumpridas que sentimos,
quando os nossos braços se cruzam
e os nossos sussurros, que eram palavras, são agora os beijos que
a saudade nos faz sentir urgentes na pele de cada um de nós.


                    *                  

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Primeiro Beijo (Version Recording)

 

Da janela do meu quarto, de coração pousado sobre o parapeito, imaginava o mundo, sonhava com tudo o que não havia visto até ali, tudo o que não conhecia, as mil e uma coisas que não sabia.

E às vezes, dentro do meu quarto, vivia, criava e sentia.

Aquele era o meu palco; por tanto tempo ainda, cantaria para as paredes, para os peluches, para quem me amava.

 

Difícil era eu amar fazer o inatingível; fácil era concretizar tudo o que amava, no meu mundo de faz de conta.

Difícil era ser feliz; fácil era sonhar que um dia o seria, a fazer aquilo que mais me realizava.

Fácil era dizer que sem ser completa, mesmo assim estava tudo bem; difícil era estar bem.

 

*

 

Primeiro Beijo, Tema Original de Cabeças no Ar

 

Aberto o meu baú de recordações, aqui está a minha interpretação deste tema, numa versão Original Recording.

 

 

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Promessas, Palavras e Instantes


Não queiras saber o que sinto, porque basta que sintas o que digo…
Não te faço promessas, que as palavras são
as mesmas, e os atos é que te vão bastar, acredita.

As loucuras a que nos damos, são só instantes, e no instante seguinte,
podemos ser céu que sem terra não é azul;
podemos ser fogo, que sem vida não aquece;
Podemos ser metades, sem um todo a que se dessem…

Mas sejamos então o que pudermos, sejamos então o que quisermos;
que na espera mora o desconhecido: o incerto que mata a chama dos que não se entregam;
o deserto que tira a força aos que não se amam.

                    *