domingo, 20 de outubro de 2013

A Tua Foto na Moldura é Nada


A tua foto na moldura é nada;
e a tua presença noutros tempos já nem importa,
porque os tempos eram outros e o tempo é areia que escapa por
entre os dedos, por entre as fendas deixadas
no mesmo lugar onde outrora havia um coração – o meu, apenas, por sinal.

A tua foto na moldura é nada.
O relógio até hoje parado, marca a hora de finalmente deixares a moldura;
é que a hora de partires já foi há muito
e tu não perdeste a viajem, se bem me lembro, sem esforço.

Já cuidei do jardim e agora há mais flores onde as ervas predominavam;
já cuidei dos baús e o teu cheiro foi com o vento e
 a tempestade que havia nestas paredes.
Portanto de te não ficou nada; nem no
meu peito vive o teu lugar, porque o amor é como as flores, que
se não se cuidam, murcham e secam, assim como as lágrimas de
sal que secaram no meu rosto, ludibriado
ao olhar, noutros tempos a foto que hoje é nada, como o nada que havia dentro de ti.

A tua foto na moldura é nada.
Larguei o trapézio sem rede e plano sem medo.
Não há mais dardos e espinhos à minha espera; e
nem a tua foto a olhar-me em tom de promessa…

Já se foi o tempo das promessas, já se foi o tempo das esperas;
e com ele também se foram as feridas;
porque a saudade é barco que não aporta no meu cais,
e o coração já não é inventário das coisas que não vivi contigo,
mas quis, quando ainda a solidão fazia sentido, e sonhei,
enquanto a tua foto era a única coisa verdadeira
que no fundo, tinhas p’ra me dar.

                    *                   


quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Sim, A Vida Não é um Poema


Sim; tens toda a razão. A vida não é um poema, não vivemos num poema; porque tudo é mais complexo que a rima ou a métrica existente, ou não, nos versos que se escreve. A dor que se representa num poema, não é a mesma que pulsa no peito, e o amor que se escreve, não chega a ter as proporções que tem o amor que se vive. Num poema o sabor das coisas surge em jeito de palavras, na vida real, surge em jeito de momentos - vivências que acontecem e nos marcam de forma doce ou amarga, até ao fundo daquilo que somos.
E enquanto houverem palavras, vão haver prosas e poemas, versos com métricas e rimas, ou mesmo versos soltos, sem qualquer rima, sem qualquer métrica; mas enquanto houver amor, eu não sei se haverá tempo para saber vivê-lo, senti-lo, estimá-lo – em resumo: saber amar.

A vida não cabe num poema; mas a delicadeza do que se sente, cabe numa palavra, num gesto e até quem sabe numa pequena flor, não perdendo por isso, já mais, toda a sua verdade, força e importância.
É que a grandeza de palavras, de gestos e de sentir, cabe de forma plena em toda a pequenez da mais ínfima coisa.

A palavra amor é tão pequena, e da nome a algo tão grande.
O sentimento amor é tão imenso, e cabe dentro do mais pequeno coração.


                    *                  

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Leve Silêncio Triste


Há nesta casa um leve silêncio triste;
uma memória de outras vidas, outros sonhos,
outros seres.

O relógio segue calado, impune, intacto;
é que o tempo não para, e com o pó acumula-se também a melancolia
que a saudade deixa quando fica,
que o tempo deixa quando passa.

Há na penumbra um pensamento largado - esquecido,
talvez.
Há um abraço, umas tantas palavras e uma história,
que a naftalina defende do tempo;
que o pó sublinha no esquecimento;
que o silêncio intensifica, calado e,
que cuja memória dá a voz.

Há em tanta solidão uma alma afundada;
um franquear de portas fechadas sem saber o que há por trás.
Há nesta casa uma memória de amor…
há nesta casa, ainda, um bocado de nós.

                    *                   


terça-feira, 8 de outubro de 2013

Poema Alado


Vou de tapete voador pelo mundo;
com pouso certo, luar incerto e voltar de vez.
Vou daqui ao polo norte,
vou ao sul, ao centro… e com sorte,
vou ao sabor de sete ventos, quatro luas e
mil marés.

Sou pássaro livre, e de liberdade
pinto as chamas que nas asas me vês,
de fugida que de outra forma não existo,
de saudade, de sonhos, de amores tamanhos,
outras vidas sem porquês.

Sou o rio que de chuva se enche,
a água que corre rumo ao rumo
que já quiseram p’ra mim.
Sou noite que de estrelas brilha e sente,
as almas, que como a minha se perdem por aí.

Vou de tapete voador pelo mundo;
nos dias sem horas, nas horas sem noites,
pelos momentos sem fim.
O sangue que nas veias me corre,
na foz deste poema se entrega e morre,
se num acaso de um dia,
deixar de voar o pássaro livre, que de livre mente mora em mim.

Sei que tudo tem um fim e,
o fim de tudo, é tudo
o que tenho p’ra ser quem sou.
Recomeço de onde começa a liberdade,
e não espero, que esperar traz saudade…
e sem promessas de regresso,
como poema alado, pelo mundo,
me refundo e vou.

                    *                  


domingo, 29 de setembro de 2013

Amanhã, Mente-me Outra Vez


Amanhã, mente-me outra vez;
sem medo, sem espanto, sem remorso.

Simplifica e mente, como agora, como antes.
Mente como sempre fizeste, e não doeu;
mente-me como eu espero que me mintas; mas desta vez, será a última vez.

Usa as mesmas palavras, os mesmos gestos, o mesmo olhar.
Usa os mesmos argumentos, as mesmas histórias, e o mesmo sentir.
Usa o que eu te dei, o que me deste e o que
a vida nos tirou.

Mente, que nada é para sempre e,
a verdade é um fim sem retorno à mentira
que vivemos e, termina com o esfriar dos sentidos
e com uma palavra de adeus, que nem os beijos sabem calar,
porque é inevitável de acontecer.

É que depois da mentira, os nossos
corpos já não são só um corpo, e
a paixão dá lugar a uma nova vida, que nos empurra
veementemente para longe de tudo o que nos fez ser
a maior mentira na vida de cada um de nós, meu amor.

                    *                  

domingo, 22 de setembro de 2013

Cada Lugar Teu

 

Esta é a minha interpretação de “Cada Lugar Teu”; tema original de Mafalda Veiga.

 

 

Nota: Por motivos técnicos, os quais dispunha na altura em que fiz a gravação deste tema, a qualidade de som não é a melhor.

 

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