domingo, 29 de setembro de 2013

Amanhã, Mente-me Outra Vez


Amanhã, mente-me outra vez;
sem medo, sem espanto, sem remorso.

Simplifica e mente, como agora, como antes.
Mente como sempre fizeste, e não doeu;
mente-me como eu espero que me mintas; mas desta vez, será a última vez.

Usa as mesmas palavras, os mesmos gestos, o mesmo olhar.
Usa os mesmos argumentos, as mesmas histórias, e o mesmo sentir.
Usa o que eu te dei, o que me deste e o que
a vida nos tirou.

Mente, que nada é para sempre e,
a verdade é um fim sem retorno à mentira
que vivemos e, termina com o esfriar dos sentidos
e com uma palavra de adeus, que nem os beijos sabem calar,
porque é inevitável de acontecer.

É que depois da mentira, os nossos
corpos já não são só um corpo, e
a paixão dá lugar a uma nova vida, que nos empurra
veementemente para longe de tudo o que nos fez ser
a maior mentira na vida de cada um de nós, meu amor.

                    *                  

domingo, 22 de setembro de 2013

Cada Lugar Teu

 

Esta é a minha interpretação de “Cada Lugar Teu”; tema original de Mafalda Veiga.

 

 

Nota: Por motivos técnicos, os quais dispunha na altura em que fiz a gravação deste tema, a qualidade de som não é a melhor.

 

*

 

domingo, 15 de setembro de 2013

Vazio - (Poema ou Desabafo, Tanto Faz)


Estou tão vazia, tão fria,
tão insípida, tão sem cor.

Levaram-me a vida, a alma – se é que a tive;
e levaram-me a crença num amanhã que era p’ra vir, sei lá.

Estou tão vazia, mais amarga,
mais só corpo que outra coisa qualquer.

A vida foi-se-me no tempo de ontem e, o que hoje me resta,
é o resto de um ser sem ser, que tem o meu nome e
a fisionomia, que se apagará,
quando mais nada sobrar
p’ra dizer sobre mim.

                    *                  


28-11-2011. In O Meu Mundo do Avesso.
É uma das exceções poéticas adicionadas a esta coleção, cuja proza é o estilo predominante, contudo, não único.


Flor de Inverno


Era assim que ela me chamava; sempre atenciosa, sempre correta, sempre ao mesmo tempo, tão protetora e atenta.
Eram todos os dias as mesmas três palavras… um doce sentido e, sobre tudo - mais importante que tudo: um doce sentir.
Os dias não me eram dias, se, a caso, viessem sem o que me dizia, sem todo o sentir que punha no que me chamava e eu ouvia, sem resposta, pois, entendê-la era ouvi-la em silêncio, como se ouve o som das estrelas, sempre que a noite nos parece ter algo a dizer.

 - Pela força que tens, pelas lutas que travas, pelas batalhas e guerras que enfrentas; pelos Invernos frios e chuvosos que tu, minha pequena flor, tens passado.

“Flor de inverno”; uma gigante de palmo e meio, que ela via crescer, entre outras flores, a sonhar com outros bosques, outras florestas, outros lugares… e até quem sabe, com outros mundos.
E sempre que eu sonhava, os seus olhos nos meus eram dois pequenos mundos que eu adentrava, curiosa, como quem lê atenta e sedenta por mais saber, as páginas de um livro que mesmo depois de lido, já mais deixa de ser todo um mundo novo, aberto e cheio de outros mundos, a descobrir.

“Flor de Inverno”, assim me chamou por tantos dias… e tantas noites… por entre tantos momentos que se findaram tão logo findou a sua caminhada, e tão logo os seus olhos se fecharam. E desde então, eu deixei de perscrutar ávida por mais descoberta, tal como uma flor rebelde que ela, e só ela sabia de cor, os seus mundos profundos, únicos, que trazia nos olhos;
aqueles olhos que eu amava, e que hoje escrevo em jeito de lembrança, porque escrever, como ela dizia, é, também, uma forma terna de, mais que lembrar, amar.

                    *                  

sábado, 7 de setembro de 2013

Depois do Pôr-doSol


Esfumou-se o tempo
impassível.

Nada faz sentido
agora.
Só resta o nevoeiro
lá fora.

E eu
aqui, sem tempo
p’ra ver nascer
outro dia
que não vem.

Não sei porquê, mas não vem,
mais um dia no
virar do tempo,
no passar das horas,
no correr do destino.

As minhas mãos tateiam,
sem urgência
o novelo e as feridas
que quando acabarem
os dias, ficarão
comigo, incólumes,
como eu que
ainda espero paciente, pelo
fim, que em fim
me pertence,
como raras, tão raras coisas
me fazem parte.

        O fogo vai-se apagar e
depois do pôr-do-sol,
não haverão mais dias,
nem tempo, nem destino.

Só a noite fica p’ra me fazer companhia,
no lugar que
outrora era teu, vida minha,
por quem morri tantas vezes,
quantas se pode morrer
de saudade;
e por quem vivi tantas vezes,
quantas se pode viver,
de amor.

                    *                  

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Sem Nunca nem P'ra Sempre, e um Post-scriptum


Escrevo-te a última carta, meu amor.
A última missiva que leva o teu nome e um punhado de
versos soltos que te escrevi, nas pétalas
brancas de uma rosa,
com as lágrimas e o sal deste mar imenso, em que te vi partir.

Sendo esta a última carta, meu amor,
não te escreverei sobre os meus desejos e sonhos
que tive p’ra nós.
Não te contarei como neste Outono me entristece
ver caírem as folhas das árvores – as mesmas
que nos serviram de refúgio, todas as vezes
que os nossos corações se apertavam pela solidão que sentíamos,
na ausência de cada um de nós.

Assim, meu amor, já não tenho mais nada a dizer-te.
Porque algo mais que te dissesse, adiaria o fim de uma carta que prometi não te escrever.

E então este amor, não secaria como as
rosas brancas que me punhas no cabelo, não
murcharia como as folhas das árvores – testemunhas
de um amor como o nosso, sem “nunca nem p’ra sempre”,
e não cairia no chão do esquecimento,
como tu e eu sabíamos que mais tarde ou mais cedo, ia acontecer.

Então, adeus, meu amor.
As rosas brancas que me deste, Deixo-as
no lugar à beira mar, de onde te vi partir, e onde vi
chegar o outono, vestido de
novo amanhecer, e recomeços
que viverei tal como tu, e tal como nos
prometemos fazer, antes do fim.


P.S.
Antes que me esqueça: Servem estas demais linhas, p’ra te dizer que
o nosso amor secará com as rosas brancas que me
deste e com as folhas de outono. E como tal
não verás renascer em qualquer outra árvore, em qualquer outra estação,
este amor que vimos cumprido em folhas verde esperança que, tu sabes, também murcharão dentro de nós.

                    *