São, em mim, tantos sonhos de vidro. Tenho-os, e quebram-se. Deles, em mim, só restam cacos – restos e feridas que, não saram, nem com tempo, nem com vontade. Nem com outros sonhos, nem com outras tantas vidas.
Se em cada vida em que me findo, cada sonho que tenho não fosse de vidro, os cacos que restam não haveriam, E em vez deles, haveriam outros sonhos, e outros vidros, e outras cicatrizes, mas desta vez, eu sei, não me fariam chorar.
Tenho os lábios secos de palavras. Tenho as mãos vazias e a roupa em desalinho. Tenho ainda uma ausência presente no meu fundo, e um mar de silêncios que não sou capaz de dizer.
Tenho um jogo perdido e uma vida sem rumo, um livro envelhecido pelo tempo e uma incerteza cravada no peito, hoje tão parco, para uma solidão tão longa.
Tenho a força e a fraqueza dos que se perdem, e tenho o norte de quem volta sempre que há à espera uma página em branco e um sentimento qualquer, que resta, para contar.
Tenho ainda mais um mundo de coisas que de nada servem e tenho um jardim sem flores defronte à janela; tão morto como um corpo frio que se despediu do mundo, assim como tu de mim.
Tenho as gavetas cheias de poemas que já sobram, porque a vida, tu sabes, não é poesia e as palavras que eu tinha, gastei-as contigo - metade que me morreste e eu nunca mais pude ter nas mãos – as mesmas com que te escrevo, agora, pela última vez.
Há poemas e músicas que nos mudam a visão a cerca de cada
obstáculo aparentemente intransponível, transformando-o e fazendo dele algo tão
mais pequeno e deixando em nós uma certeza indescritível, que mais parece ser
uma força interminável para correr o mundo, tocar as estrelas e concretizar num
estalar de dedos quaisquer sonhos.
Mas também há poemas e músicas que nos mostram que nem tudo
é tão simples assim; as coisas doem, magoam, marcam; fazem-nos cair e levantar
repetidas vezes, desistir e retomar a luta enquanto pudermos e se pudermos, voltar
às cinzas e das cinzas erguer o nosso mundo novamente para sempre ou só apenas
enquanto puder ser, se puder ser, porque a vida não acontece só as vezes… ela
acontece dia após dia, a cada pulsar inquieto ou compassado do coração, a cada
ferida aberta ou sarada, que uma vez cicatrizada, permanece até ao fim,
tatuando na alma e na pele quem somos ou quem fomos, como uma lembrança, que
pode ou não, trazer saudade.
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Texto inspirado na música/interpretação que se segue, dá
nome e ilustra o post.
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Esta é a minha interpretação de “Restolho”, tema original de Mafalda Veiga
Todos os dias à mesma hora ele parava no mesmo lugar,
sentava-se no mesmo banco de jardim, e num gesto habitual e distraído, olhava o mostrador do
relógio já desgastado pelo tempo, que havia passado por eles e deixara em ambos
marcas bem reconhecíveis.
Na mão trazia sempre um livro envelhecido pelo pó que suportara
numa qualquer estante e pelas vezes que lhe servira de companhia, nas noites em
que a solidão se acercara dele ao longo de tanta vida que já vivera, durante
tantos anos, certamente recheados de muitas histórias que teria para contar,
mas a quem?, se mais ninguém havia para as ouvir, a
não ser o banco de jardim onde se sentava todos os dias, perdido em sonhos que
só ele saberia de cor, ou então perdido nas páginas do velho livro que ainda
mais o fazia sonhar.
Ninguém, para além de mim o notava todos os dias ali, há mesma
hora, sentado no mesmo banco a ler um livro, ou a desfrutar de um sonho que lhe
conferia brilho aos olhos, e lá quando era, um sorriso que se desprendia dos
seus lábios geralmente serrados, assim como serrados eram os poucos rostos que
o olhavam sem o verem realmente ali sentado, acompanhado pela solidão,
transformada em banco de jardim e em livros e sonhos, que só quem está
realmente só, consegue compreender, como eu sei que ele compreendia.
Mas hoje já é a mesma hora que era nesses dias em que ele
vinha, e hoje ele já não vem e eu ainda olho o banco de jardim, que me parece
tão diferente e tão vazio, porque aquele sonhador não mais voltou e o livro da
vida que escreveu fechou-se para sempre, assim como se fechavam por alguns
momentos os seus olhos, sempre que sonhava e se perdia nas lembranças que
mantinha como sendo as únicas relíquias certas, a par da solidão, do velho
relógio, dos livros e do banco que ficou tão só, como só ficava aquele que não
mais voltou, e só deixouno seu lugar a ausência que apenas asolidão sentida consegue recordar e perceber.
Este poema “É
Teu o Meu Coração”, foi escrito para um desafio colocado pela Escritora
Conceição Sousa, na sua página do facebook: Livros de Conceição Sousa
Escrevi-te num poema, sem versos que te servissem. Indescritível, desejável, inalcançável. A estrela daquela noite, que eu não ia ver acontecer.
Guardei-te numa foto, assim como no pensamento. Não era possível ter-te, mas no fundo, era possível amar-te; confuso, complexo… demasiado incerto, ou certo… Ah! Que dizer?
Guardei-te numa caixa de lembranças, assim como no peito; Não era possível ver-te, mas era possível imaginar-te; Injusto, ou justo… o pior era querer-te!
Levei-te nos braços, sem que não pudesse abraçar-te, Tocar-te, soltar-te; o mal de tudo era amar-te… desejar-te!
Esqueci-te, perdi-te; Não faz diferença, afinal nunca te tive. Assim depois de te libertar, o melhor foi libertar-me!