sábado, 31 de agosto de 2013

Sonhos de Vidro


São, em mim, tantos sonhos de vidro.
Tenho-os, e quebram-se.
Deles, em mim, só restam cacos – restos e
feridas que, não saram,
nem com tempo, nem com vontade.
Nem com outros sonhos, nem com outras tantas
vidas.

Se em cada vida em que me findo,
cada sonho que tenho
não fosse de vidro,
os cacos que restam não haveriam,
E em vez deles, haveriam outros
sonhos, e outros vidros, e outras cicatrizes, mas desta vez,
eu sei, não me fariam chorar.

                    *                  

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Metade


Tenho os lábios secos de palavras.
Tenho as mãos vazias e a roupa em desalinho.
Tenho ainda uma ausência presente no meu fundo,
e um mar de silêncios que não sou capaz de dizer.

Tenho um jogo perdido e uma vida sem rumo,
um livro envelhecido pelo tempo e uma incerteza
cravada no peito, hoje tão parco,
para uma solidão tão longa.

Tenho a força e a fraqueza dos que se perdem,
e tenho o norte
de quem volta sempre que há à
espera uma página em branco e
um sentimento qualquer, que resta, para contar.

Tenho ainda mais um mundo de coisas que
de nada servem e
tenho um jardim sem flores defronte à janela;
tão morto como um corpo frio que
se despediu do mundo, assim como tu de mim.

Tenho as gavetas cheias de poemas que já sobram, porque
a vida, tu sabes, não é poesia e as palavras que eu tinha,
gastei-as contigo - metade que me morreste e eu
nunca mais pude ter
nas mãos – as mesmas com que te
escrevo, agora, pela última vez.

                    *                  

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Restolho

 

Há poemas e músicas que nos mudam a visão a cerca de cada obstáculo aparentemente intransponível, transformando-o e fazendo dele algo tão mais pequeno e deixando em nós uma certeza indescritível, que mais parece ser uma força interminável para correr o mundo, tocar as estrelas e concretizar num estalar de dedos quaisquer sonhos.

 

Mas também há poemas e músicas que nos mostram que nem tudo é tão simples assim; as coisas doem, magoam, marcam; fazem-nos cair e levantar repetidas vezes, desistir e retomar a luta enquanto pudermos e se pudermos, voltar às cinzas e das cinzas erguer o nosso mundo novamente para sempre ou só apenas enquanto puder ser, se puder ser, porque a vida não acontece só as vezes… ela acontece dia após dia, a cada pulsar inquieto ou compassado do coração, a cada ferida aberta ou sarada, que uma vez cicatrizada, permanece até ao fim, tatuando na alma e na pele quem somos ou quem fomos, como uma lembrança, que pode ou não, trazer saudade.

 

*

 

Texto inspirado na música/interpretação que se segue, dá nome e ilustra o post.

 

*

 

Esta é a minha interpretação de “Restolho”, tema original de Mafalda Veiga

 

O Sonhador do Banco de Jardim

 

Todos os dias à mesma hora ele parava no mesmo lugar, sentava-se no mesmo banco de jardim, e num gesto habitual e  distraído, olhava o mostrador do relógio já desgastado pelo tempo, que havia passado por eles e deixara em ambos marcas bem reconhecíveis.

Na mão trazia sempre um livro envelhecido pelo pó que suportara numa qualquer estante e pelas vezes que lhe servira de companhia, nas noites em que a solidão se acercara dele ao longo de tanta vida que já vivera, durante tantos anos, certamente recheados de muitas histórias que teria para contar, mas a quem?, se mais ninguém havia para as ouvir, a não ser o banco de jardim onde se sentava todos os dias, perdido em sonhos que só ele saberia de cor, ou então perdido nas páginas do velho livro que ainda mais o fazia sonhar.

 

Ninguém, para além de mim o notava todos os dias ali, há mesma hora, sentado no mesmo banco a ler um livro, ou a desfrutar de um sonho que lhe conferia brilho aos olhos, e lá quando era, um sorriso que se desprendia dos seus lábios geralmente serrados, assim como serrados eram os poucos rostos que o olhavam sem o verem realmente ali sentado, acompanhado pela solidão, transformada em banco de jardim e em livros e sonhos, que só quem está realmente só, consegue compreender, como eu sei que ele compreendia.

 

Mas hoje já é a mesma hora que era nesses dias em que ele vinha, e hoje ele já não vem e eu ainda olho o banco de jardim, que me parece tão diferente e tão vazio, porque aquele sonhador não mais voltou e o livro da vida que escreveu fechou-se para sempre, assim como se fechavam por alguns momentos os seus olhos, sempre que sonhava e se perdia nas lembranças que mantinha como sendo as únicas relíquias certas, a par da solidão, do velho relógio, dos livros e do banco que ficou tão só, como só ficava aquele que não mais voltou, e só deixou  no seu lugar a ausência que apenas a  solidão sentida consegue recordar e perceber.

 

*

 

terça-feira, 13 de agosto de 2013

É Teu o Meu Coração

 

Nota:

Este poema “É Teu o Meu Coração”, foi escrito para um desafio colocado pela Escritora Conceição Sousa, na sua página do facebook: Livros de Conceição Sousa

Blogue da Escritora: www.conceicaosousa.blogspot.com

 

Muito obrigada, estimada Conceição, pela partilha e apreciação do meu trabalho, e pelas suas palavras, para mim, de muito valor!

 

 

*

 

É teu, amor, o coração que me

bate no peito e

que ouves chamar o teu nome, com voz de

saudade, com murmúrios de mar salgado.

 

É teu, amor, o coração que

te guarda e te leva no meu peito, através

das noites e dos dias perdidos,

que passo calada, na espera enlouquecida pelo

desespero de não ter o teu abraço.

 

É teu, amor, o coração que te guarda

nas noites frias e te embala, quando

te faltam os sonhos e os sorrisos que

me fazem amar-te, em cada verso que te escrevo.

 

É teu o meu coração, que se

não fosse teu, em mim, não haveria

razão para ser eu.

 

*

 

domingo, 11 de agosto de 2013

Um Poema Sem Nome, Para uma História Sem História


Escrevi-te num poema, sem versos que te
servissem.
Indescritível, desejável,
inalcançável.
A estrela daquela noite,
que eu não ia ver acontecer.

Guardei-te numa foto, assim como no pensamento.
Não era possível ter-te, mas no fundo,
era possível amar-te;
confuso, complexo…
demasiado incerto, ou certo…
Ah! Que dizer?

Guardei-te numa caixa de lembranças,
assim como no peito;
Não era possível ver-te, mas era possível imaginar-te;
Injusto, ou justo… o pior era querer-te!

Levei-te nos braços, sem que não pudesse abraçar-te,
Tocar-te, soltar-te;
o mal de tudo era
amar-te… desejar-te!

Esqueci-te, perdi-te;
Não faz diferença,
afinal nunca te tive.
Assim depois de te libertar,
o melhor foi libertar-me!

                    *