domingo, 22 de julho de 2012

Foram as Palavras...

 

Foram as palavras…

Aquelas que li e que escrevi,

Que me fizeram, que me criaram.

Que me reconstruiram e reconfortaram.

 

Foram as palavras…

Aquelas que desenhei e rabisquei…

Aquelas que perdi e que ganhei.

As palavras que escrevi e apaguei...

As que esqueci e que lembrei.

 

Foram as palavras…

Que me deram companhia e alento…

Que me deram chão, quando o chão se me faltou…

Que me deram tudo,

Quando o nada acabou.

 

Foram as palavras…

Que ficaram lá, quando mais ninguém ficou.

Que me ouviram, quando mais ninguém o fez.

Foram as palavras que me formularam os porquês.

E com as mesmas palavras,

Encontrei respostas,

Uma e outra vez.

 

Foram as palavras…

Que me desfizeram o nó preso na garganta.

Que formaram o grito da minha falta.

Que contaram aos outros seres a história que se lê nas entrelinhas.

Foram todas essas palavras,

Que hoje sei certamente que são do mundo…

Mas também são, inegavelmente minhas…

 

                               Fim                       

 

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Tudo o Que Não Tenho

 

Não tenho laços, medos, espaços…

Não tenho sentidos, temores, limites…

Não tenho alma, calma, coragem…

Não tenho sorte, morte, miragem…

Não tenho força, alento, certeza…

Não tenho vida, momentos, tristeza…

Não tenho certo, errado, ternura…

Não tenho brilho, sorriso, amargura…

Não tenho ausência, vontade, mentira…

Não tenho porto, casa, saída…

Não tenho conforto, norte, abraço…

Não tenho loucura, desdém, cansaço…

Não tenho saudade, sombra, coração…

Não tenho caminho, voz, emoção…

Não tenho rédeas, amarras, farol…

Não tenho rio, onda do mar, raio de sol…

Não tenho poema, canção, poeta…

Não tenho contrário, contraste, nuance

Não tenho palavras, história, romance…

Não tenho a chave, a porta aberta, chão seguro…

Não tenho delírios, pretéritos, futuro…

Não tenho tudo, não tenho nada, nem o não sei

Não tenho começo, fim ou lei…

Não tenho palácio, castelo de areia, ou sonho…

Não tenho o que tenho, o que me dão e o que disponho…

Não tenho o que peço, o que esqueço e ofereço…

Não tenho o que quero, o que venero o que mereço…

Não tenho o que resta, o que não presta, o que não nego…

Não tenho o positivo, o negativo, o meio termo

Não tenho o alento, o tempo, o sossego…

E apenas  tenho lembranças, o corpo, o desapego.

 

                               Fim.                     

 

terça-feira, 17 de julho de 2012

Ontem, Hoje, Amanhã

Ontem eras tu….

Eram os teus sonhos, os teus medos, os teus temores.

Continuavas a ser tu…

Os teus paços, os teus sentimentos, os teus espaços.

Não deixaste de ser tu…

Com os teus gestos, os teus sorrisos, os teus momentos.

(…)

 

Hoje sou eu…

Com as minhas saudades, as minhas perguntas, as minhas ausências.

E continuo a ser eu…

Com a minha insegurança, a minha loucura, a minha esperança.

E não deixo de ser eu…

Com o meu amor, a minha fraqueza, a minha força.

(…)

 

E amanhã, o que será?

Será a lembrança, o que já foi, e o que não se tem?

Seremos nós,

Eu, tu, nós juntos, ou ninguém?

O que será amanhã, não se sabe bem.

(…)

 

                               Fim.

 

 

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Ela, Ele e um Talvez

 

Ela caminha em passo rápido e decidido ao longo da rua movimentada por transeuntes e automóveis apressados; no entanto, mesmo havendo tantas pessoas e carros na rua, ela nem repara e vai direito a casa, absorvida nos seus pensamentos complexos - dentro da sua bolha particular.

Aproxima-se da porta, introduz a chave na fechadura, e sorri consigo mesma. Chegou a casa e agora só queria vê-lo e senti-lo ali - ele não está, e talvez nunca chegue a estar; mas porque não sonhar com isso mesmo? Porque não sonhar que ele lhe dá as boas vindas a casa logo que ela chega, beija-a suavemente e segura-a nos braços enquanto lhe passa a mão nos cabelos? Pergunta-se a si própria: Porque não?

Enquanto pousa as coisas nos devidos lugares e se dirige para o quarto, que é o seu porto de abrigo, onde se refugia a imaginá-lo lá, tão seguro ao seu lado, a percorrerem um caminho juntos que ela desejava que lhes pertencesse, mas que até então não pertence, a sua voz profunda e ao mesmo tempo forte e doce, que a deixa tonta, apaixonada e incoerente sempre que o ouve falar, o seu perfume, que ela conhece a marca e o cheiro, o que fariam juntos… as suas conversas, os seus abraços e beijos, os seus silêncios tão cheios de sinais que só eles entenderiam; os problemas que teriam, mas que certamente se predispunham a ultrapassarem juntos… e tanto mais que ela gostaria que ele também quisesse, mas que ele pelos seus motivos, medos e até quem sabe alguma insegurança, não quer.

 

Um ano passou, e ela ama-o com a mesma intensidade; ama-o tanto, que por muito que algum dia queira descrever o que sente a ele ou a outras pessoas, não o conseguirá fazer devidamente, porque ela sabe que não há palavras que cheguem para isso. Há quem saiba desse sentimento que ela nutre por ele - uns, não entendem, outros, ignoram e fingem que ela é fria e tudo lhe passa ao lado, inclusive o amor.

Ela não se importa com as opiniões dos outros acerca de si. Ela sabe que o que sente por ele é verdadeiro, e isso basta-lhe.

Ela também sabe e reconhece que ele sabe do que ela sente, mas prefere ignorar, ou apenas fingir que nada é assim. Profere-lhe sempre que ela toca no assunto de o amar de uma forma desmedida e com todo o seu ser, as mesmas palavras: -- O nosso tempo já passou. O que tinha de ser, se nunca foi, já não vai ser, muito simplesmente, porque não dá… o melhor é esqueceres; eu gosto de ti, mas… somos apenas amigos…

Ela sabe que ele diz aquilo, e que ele sente aquilo que diz. Mas talvez ele também a ame. Não com a mesma intensidade, mas ele gosta dela. É um gostar sincero e verdadeiro, muito embora seja muito menos intenso do que aquilo que ela sente por ele. Enquanto se senta na beira da cama, vai pensando nele, e naquilo tudo que ela lhe gostaria de dar e dizer… que atitude tomar, para poder fazer com que ele entenda que ela quer lutar por ele, mas tem algum medo de que essa luta seja o términos do pouquinho que ainda os liga. Pensa também no que será que ele anda a fazer, se está feliz, se se sente realizado na sua vida pessoal e profissional agora, se ele alguma vez no seu dia pensa nela por um momento que seja como ela pensa nele. Será que ele precisa de alguma coisa? Será que ele está triste ou a sorrir com aquele sorriso que ela adora e que a faz sorrir também? Será que ele está em casa ou foi sair com amigos?

Será que todas as suas faltas de tempo para ela, são as mesmas faltas de tempo para outras pessoas?

(...)

 

Um longo ano passou desde que se conheceram. A distância que os separa, impediu e ainda hoje impede a história deles de se tornar algo possível e real. Para ela, ele não é a razão da sua vida, porque ele é todo o seu viver.

Para ele, ela é uma amiga de quem ele gosta muito, e que ele apoia incessantemente, ajuda de forma dedicada sempre que pode e sempre que preciso for.

Para ela, ele é e será sempre o grande amor da sua vida.

Para ele, ela é alguém que como ele disse um dia, sabe que pode confiar, e que a ela, ele pode contar tudo, mesmo achando que ela é uma tola, que não sabe bem o que é amar, e está a confundir tudo o que sente - não a censura por isso, mas por precaução, mantém-se um pouco a defesa, e conserva uma certa distância. Ele não a quer magoar. A última coisa que ele quer é que ela sofra e ela sabe disso. Mas ela sofre com tudo o que os separa, e com o afastamento que surgiu algum tempo depois de a vida os ter colocado no caminho um do outro.

No entanto, o que os separa, não faz com que o sentimento dela por ele se acabe, e ela possa assim colocá-lo num patamar de amizade igual ao que ele a coloca.

Quem sabe um dia, ela o possa abraçar e fazer com que ele acredite que ela sente cada palavra que lhe diz. Talvez quem sabe nesse dia, ele também possa entender que se ela errou, não foi com qualquer intenção de o magoar. Ela vai sempre esperar que um dia ele se dê conta de que a ausência dele a faz chorar e a faz sentir-se incompleta, porque ela sente saudade, e tem medo de o perder a ele e tudo o que ainda lhes resta, definitivamente

(...)

 

Ela deita-se em sima da cama, abraça a almofada e adormece a pensar nele. Antes de cair no inconsciente e mergulhar no mar dos sonhos, chama baixinho o nome que tanto lhe significa. Ela já sabe que quando acordar, vai olhar e tocar as fotos dele, guardadas cuidadosamente dentro do diário onde ela lhe escreve as cartas que espera que ele um dia leia, e onde estão também as coisas que partilharam naquele tempo que ele lhe diz que passou, mas que ela tem a esperança que volte, mostrando-lhes que pode haver um amanhã para eles.

(...)

 

               *Ela e ele, um dia talvez possam ser um só…*

 

*