sábado, 9 de junho de 2012

Simplificando-nos

 

Esqueceste-me…

mas eu não te esqueci.

Tu perdeste-me…

mas eu não te perdi.

Ocultaste-me…

e eu marquei-te em mim.

 

Ignoraste-me…

mas eu fiquei junto a ti.

Calaste-te…

e eu falei por ti.

Odiaste-me…

e eu perdoei-te mesmo assim.

 

Soltaste-me…

mas abracei-me a ti.

Soltaste-te…

e eu entendi.

Apagaste-te…

e eu reinventei-te e escrevi-te assim.

 

Perdoaste-me…

e eu o erro admiti.

Voaste…

e eu espero por ti.

Mudaste…

só que antes de ti, eu percebi.

 

Sofreste…

e eu por ti sofri.

Sofremos

os dois assim.

 

Falamos…

mas acabou para ti.

Para ti passou;

não passou para mim.

 

Deixaste-me…

e eu fiquei a esperar-te aqui.

 

*

 

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Quem sou eu?

eu sou os inegáveis e incontáveis medos que sinto,
sou os sonhos que tenho...
sou o tempo que pressinto...
sou a arte e o engenho.

sou o caderno antigo e esquecido, onde escrevo...
com caneta de tinta preta e sentimento.
sou o relógio que compassadamente dá horas,
fixo e esquecido na parede,...
sou a chuva e o tormento,
e sou o tudo e o nada que tenho.
eu sou o carma que carrego...
e o sonho guardado a a muito tempo...
sou o grito de quem grita,
sou o medo que desdenho.

eu sou o segredo bem guardado...
sou o livro que ninguém lê...
sou o poema bem escrito,
sou o verso que não se vê.
sou horizonte sem paisagem...
barco a deriva em alto mar.
eu sou a vontade de partir...
misturada ao desejo de ficar.

eu sou aquilo que não és.
pois somos diferentes, e isso eu sei.
eu faço daquilo que eu sou...
a regra e a excepção do que quero...
e não uma lei.

eu sou os livros nas prateleiras,
os dialectos da ilusão...
eu sou aguarela fantasiada de maresia...
sou batimento rebelde e alado, do coração

eu sou o que esperas que eu seja...
mesmo antes de ser o que eu desejo.
sou apenas quem tu conheces...
no olhar de antigamente, que revejo.

eu sou a verdade que reconheço e escrevo...
nas somas de letras e palavras doces.
eu sou aquela que fica e sente a saudade de quem vai.
e quem dera que tu nunca fosses!

eu sou o lado mais claro da vida que me faz ser quem sou.
sou o lado mais negro e mais escuro... que traça o caminho por onde vou.
sou o passo e o espaço,
sou o calor, o terno abraço.
sou o planeta ou cometa da galáxia em colisão.
sou o sim, o talvez, sou o grito quando digo não!
sou a volta da revolta!
o regresso do que não esqueço.
sou a noite, ou o dia mais claro.
sou o que dou, o que peço e ofereço.

eu sou aquilo que quero.
quando escrevo, quando falo, ou quando canto.
sou aquilo que penso, digo, ou recito...
tenha, ou não tenha;
qualquer valor, magia ou encanto.

eu sou a música que me inspira estes poemas...
eu sou a sorte, o azar e a companhia...
eu sou os versos que solto, na minha filosofia...
eu sou o que quero, e que antes também já queria.
sou uma pauta, uma oitava, uma clave...
sou um verso, uma quadra, ou uma estrofe...
sou um ser completo, ou apenas a metade...
sou o princípio do fim...
sou o azar profundo, ou a sorte.

eu sou as cartas que escrevo...
os livros que leio, refundida na solidão.
eu sou o amanhã que por não saber, receio...
sou o conforto da minha circunspecta indecisão.
sou as caras que vejo a vaguear por aí...
e a exaustiva procura, de um mundo mais meu.
eu sou a pequena criança, que ainda abraça o sonho...
sou os olhos atentos, que perscrutam o azul vasto do céu.


Fim.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Tempo...

 

Tempo;

é o que preciso, e mais falta tenho.

É o que quero, e o que não existe.

 

É por tempo que grito,

mas que não recebo.

E é tempo que perco, enquanto me decido.

 

E neste vasto tempo, conto o tempo que não passa,

sempre que a dor de mim toma conta,

e mais uma ferida me trespassa.

 

Mas se a caso preciso de mais tempo;

é coisa que não me calha,

é tempo que escasseia.

Será a sorte que me falha?

 

Só preciso de tempo

para fazer a escolha que nunca fiz -

para poder fugir ou ficar,

para cair ou chorar,

para lutar e ser feliz.

 

Mas por mim o tempo, passa e corre depressa demais;

como o vento de tempestade,

como as chuvas geladas de temporais.

 

Eu só queria tempo!

Tempo para ser menina, para ser mulher,

para poder desistir ou fazer acontecer.

 

Preciso de tempo para me decidir:

Entre querer o amor, ou do amor poder fugir.

Mas não tenho esse tempo - Palavra composta por 5 letras;

escrita em tantas e tantas frases,

e espelhada em vastos poemas.

Nas obras com tanto tempo,

de intemporais poetas.

 

E é dessa palavra que eu tanto preciso - O tempo que falta…

o tempo pedido.

Eu só quero tempo; esse tempo que não vem…

o tempo que não me diz quem sou, e não faz de mim alguém.

 

É por esse tempo que anseio;

e se não chega, eu tenho medo.

 

Esse tempo que é o remédio, que me faz voltar a lutar;

salva-me do desespero de não ter mais tempo..

para poder amar, querer e sonhar.

 

Se o tempo que eu tenho, é a cura para todos os problemas;

porque passo eu tanto tempo

por entre teias dos meus dilemas?

 

 

Já tive o tempo, em que ter tempo era pior do que tudo;

era ter tempo para gastar, tempo para não pensar,

tempo para correr o mundo.

 

Mas agora quero e preciso de tempo,

para falar tanto que tenho calado…

tempo para concertar,

aquilo em que errei - corrigir um passo mal dado.

Só que agora, que desse tempo preciso - esse tempo não vem -  

não me é tempo concedido.

 

Ah, se eu um dia tiver tempo,

para poder o tempo aproveitar;

eu vou dizer o que nunca disse…

vou amar como se não houvesse amanhã -

como se o tempo pudesse parar.

 

Sim! Eu vou ter tempo de existir!

 

*

 

 

Reflecção:

 

O tempo agiganta-se para todos os que apenas podem  existir, e apequena-se para os que tem a plenitude de poderem ser.

 

Este é o resultado de ter demasiado tempo para perder...

e faltar-me muito tempo para poder ganhar.

Agradeço a quem perdeu tempo, a ler algo de quem tem falta de tempo para ser feliz, e tem demasiado tempo para não ter mais do que o suficiente, para ser pequeno ponto no vasto universo.

 

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Quando...

 

enquanto eu viver-  será porque há tempo…

e se há tempo - terei de aproveitá-lo;

e se nesse tempo, não mais me sobrar tempo;

eu também não vou correr

para poder apanhá-lo.

 

e se há tempo;

não faltam momentos para o aproveitar.

Há tempo para viver, há tempo para sofrer...

há tempo para ganhar e tempo para perder,

há tempo para amar; e mais tempo há

para se poder morrer..

 

quando eu morrer, será porque tinha de ser;

e quando eu chorar, será porque a vida assim quis.

Quando eu sonhar, vou julgar que é algo inútil.

Quando eu acreditar, não vou querer fazê-lo.

Quando eu lutar, será por sentir revolta.

Quando eu gritar, é porque dói muito!

Quando eu amar, será porque não fugi;

e quando eu fugir, será da tristeza.

Quando eu pensar, será porque estou só.

Quando eu voltar, é porque a dor findou...

Quando me encontrar, saberei quem sou.

Quando eu cair, a queda não será aparada.

Quando eu me levantar, será por minha própria vontade.

Quando eu andar sem destino, chegarei a lugar algum.

Quando eu der a vida um sentido, que sentido será?

Não reconhecerei nenhum.

 

E quando eu entender o meu quando,

saberei que o quando não é para depois…

e saberei que nesse quando, serei somente eu - nunca o equivalente a 2.

 

E quando eu ao fim chegar;

será o tempo que me faltava…

e então quando eu desistir, é porque o tempo acabou - cheguei ao fim da estrada.

 

*

 

Caleidoscópio

 

Aqui e agora, vemos as voltas do caleidoscópio,

que gira na cabeça, de quem sem o sono ficou.

Voltas com rumo e outras sem ele;

voltas de quem, ao sonho não voltou.

São as voltas de quem se não fica

por voltar ao passado revoltado

 - Hás imagens coloridas de uma volta ao passado.

 

Nessas voltas e revoltas,

volta o caleidoscópio a girar, e

traz mais imagens de outras voltas,

de quem volta a acreditar,

 

que para voltar nunca é tarde;

num voltar com vinda certa.

E só quem não volta a ser quem é,

não volta a ver a volta da vida, de mente aberta.

 

No voltar da consciência,

volta o medo e a razão;

numa imagem silenciosa e indefinível

 - no voltar da sensação.

 

E volto ao ponto que já perdi,

numa dessas minhas voltas revoltadas.

Gira o caleidoscópio nas mãos de quem

vê as imagens sem dizer nada.

 

E é meu, mais um momento de lembranças;

de palavras e sonhos nestas voltas.

Sonhos de abraços perdidos e outras vidas

 - no caleidoscópio das minhas revoltas e voltas.

 

E volto a voltar,

a girar, nas mãos do coração o caleidoscópio;

para que possa voltar a ver

a volta quase indivisível que há entre o amor e o ódio.

 

Nas voltas coloridas do caleidoscópio da vida,

às vezes vemos o que somos, e o que nunca seremos.

Mas para vermos tudo outra vez...

voltamo-lo a girar, se o coração deixar.

Se pudermos .

 

Eu vou voltar a voltar a trás;

quero rever tudo, e sei que vou ser capaz:

de voltar voltando,

em mais uma volta de cores e lembrança;

como um caleidoscópio de brincar, nas mãos ternas de uma criança.

 

E não voltarei, à revolta contida de antigamente

 - vou girar o caleidoscópio da minha vida,

até poder ver o arco íris de um sonho que chega,

suave… solto… brilhante.

 

*