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segunda-feira, 19 de maio de 2014

Demora

 

 

Demora-te em mim como em mim

se demorou a saudade de ti.

Demoro-me em ti, como em ti

desejei que se demorasse tudo o que te quis dedicar.

Que se demore tudo o que pudermos ter p'ra demorar.

 

Que se demore a chegar o fim do nada que temos, diante tudo o que somos.

 

Há uma demora qualquer que nos afasta - a mesma

demora, que nos faz voltar e, não

nos deixa esquecer:

os teus dedos quentes, demorados,

no meu rosto;

E os teus lábios, exigentes, nos meus lábios;

e os nossos corpos que se demoram nos momentos

que desejamos, sem motivo, sem explicação...

 

E depois, quando toda a demora tiver fim,

que se demore o adeus - aquele adeus.

O mesmo que vi nos nossos gestos.

O mesmo adeus que me dizes por palavras, mas contrarias quando me abraças.

 

Porque no teu abraço, cabe-nos o mundo...

assim como no meu peito existe e cabe-me o teu lugar.

 

 

*

 

 

terça-feira, 25 de março de 2014

Entretanto Meu Amor

 

Existe ao lado da cama, no chão um papel.

Um bilhete deixado com as palavras que sobraram da vastidão que fomos.

Tem, depois do último adeus, um

beijo que é meu e,

um rosto gravado, que vi

amanhecer comigo tão poucas vezes.

O teu rosto - o mesmo, p’ra quem escrevi

tantos versos soltos, que acabaram

secos e mortos,

depois de um obrigado que

se deixou por acaso e, depois

de nos precisarmos e nos termos, num entretanto.

 

Porque fomos isso: um entretanto;

enquanto pudemos, enquanto

houvessem versos e beijos e,

palavras por trocar, corpo a corpo,

passo a passo,

beijo a beijo, sem promessas

De nós; porque não fomos

Nós, depois do papel que agora amaço,

a fim de não deixar soltarem-se as lembranças do quanto te quis

sem querer; sem saber como

te deixar de amar, mais

uma vez – uma última vez, que

entretanto ainda lembro, meu amor.

 

*

 

 

domingo, 16 de março de 2014

Pontas Soltas

 

Fechei a porta atrás de mim e,

vou-me embora.

O relógio de pulso não funciona, mas estou com tempo.

O bilhete, no bolso de traz das jeans é só de ida,

porque voltar, não é plano que leve comigo, agora que parto.

 

Deixo a chave no fundo do bolso, propositadamente esquecida.

Quero esquecer todas as histórias até então vividas;

é que escrevi a lápis de carvão uma vida inteira,

num caderno que me pertencia.

Só que a vida, descobri:

já não me cabe num caderno;

e as marcas de quem fui: já não há

espaço no peito, para que as guarde;

e os planos que fiz, perderam a razão de ser, até

mesmo, quando os escrevi a lápis de carvão.

 

O pouco que sei é

o único mapa que tenho.

A viajem é longa, mas vou fazê-la.

Há pouco que cá fica, que cá me prende e,

tudo o que sei até hoje já não basta;

porque de todas as respostas que precisava, poucas me deram; e

de todas as certezas que tinha, só meia dúzia me sobraram.

 

Levo escrito na palma da mão o nome e,

um passado sem rosto que me pertenceu.

Pontas soltas não deixo, porque os laços

Há muito que se desfizeram.

As amarras eram um cais sem lugar para mim,

porque talvez fosse eu, de lugar nenhum; qual barco

à deriva, nas ondas de uma vida sem portos de abrigo seguros,

para onde voltar.

 

Há um raio de sol que se me coloca sobre os ombros.

Talvez seja o último abraço

de quem me viu crescer.

Resta-me o conforto das não recriminações que

este abraço não me diz e,

resta-me, sobre a mesa de padrão complicado, que

acompanho distraída com os dedos, o

último café quente que tomo neste lugar, onde tantas

Vezes vi chegar novos dias e,

tantas noites que,

já sei: apagar-se-ão da minha memória,

Com o tempo.

 

Observo estranhos e carros, rumo

às suas próprias vidas.

Atravesso a estrada, e olho mais uma vez, por segundos,

a mesa onde estivera e,

o rosto que me deu um sorriso como moeda de troca, pelas

minhas moedas, que lhe dei p’ra pagar o café.

Não disse adeus ao vir-me embora.

Não disse nada, foi melhor assim.

Deixei as despedidas p’ra trás, como

p’ra trás ficaram planos

e cadernos cheios de palavras, que um dia

me serviram de almofada,

para encostar todos

os sonhos que não pude concretizar…

É que os sonhos são sempre livres, as realidades nem sempre são.

 

Sinto o vento a remexer-me os cabelos.

Não sei se é uma festa que me faz

de encorajamento ou, reprovação…

É que amanhã o lugar é outro, onde estarei;

mas a vida é a mesma,

eu sou a mesma…

O que eu sinto é que talvez, não.

 

*

 

domingo, 29 de dezembro de 2013

Mãe

 

Mãe, o poema que te escrevo,

é as cartas que de mim nunca recebeste, as palavras de afeto que nunca te disse

e, um bocado de mim que nunca te contei…

Não sei bem porque foi assim, mas tu lá saberás, porque tu mesma

dizes que sentes tudo o que fica em mim, por te dizer.

 

Mãe, as flores que nunca te dei têm a cor

do sangue que nos une e o

perfume que tu trazes sempre contigo e,

vivem espalhadas por entre as linhas que te escrevo assim.

É que sabes, eu não tenho jeito para dar flores e

os sentimentos enrolam-se-me na língua,

dando-me a certeza de não os saber contar-te.

 

Mãe, o tempo é tão vasto, mas os dias tão escaços,

para partilhar contigo tudo o que temos a partilhar.

É que as nossas diferenças às vezes afastam-nos tanto,

que eu tenho saudades de quando ainda

era a menina de colo que abraçavas; nesses tempos

em que nada mais existia que o amor.

 

Mãe, há em mim uma infinidade de coisas que te pertencem;

mas o que eu quero de ti é o

abraço quente no meio do frio do inverno e,

no fim de tudo isso, o que eu tenho para te dar,

é aquilo que tantas vezes não consegues entender na pessoa que eu sou – avida que

não existiria sem que tu existisses, mãe.

 

 

Mãe, se a coragem me faltar um dia e,

a tua força não servir para que eu volte a sorrir:

não chores nem implores por mim;

Porque tu sabes, e se não sabes eu vou-te dizer: a tua felicidade é o meu desejo;

mas o meu coração perdeu-se algures no peito;

numa ferida aberta que me

consumiu todos os sonhos que tinhas para mim e,

deu lugar a uma vida tão diferente daquilo que esperámos, de

mãos dadas, durante o tempo em que me viste crescer

e tornar-me uma mulher – a mulher que hoje, finalmente te escreve, mãe.

 

Mãe, apesar de tudo, quero

que saibas que: o teu sorriso é a minha paz e,

a tua dor é a minha tristeza;

mas o meu sofrimento, é a ausência dos sonhos que já tive e não te contei.

Nem sei bem porque assim foi, mas tu sabes, porque tu sentes tudo

e, esse tudo que sentes, é um pouco do que sinto também.

 

Mãe, acabo este poema com tanto por

te dizer; mas as palavras, tu sabes,

são o tempo que se nos restar, já não sobra… E são

também pingos de um amor que não morre como as flores - as mesmas

que sei que não te dei e ainda esperas, junto com os sonhos que não te soube concretizar.

É que nas nossas diferenças morou e, ainda mora tanta saudade e

um silêncio tão grande, como grande é a espera em que vivemos,

de um dia vermos em cada uma de nós,

todos os sinais daquilo que a vida nos ensinou;

todas as marcas daquilo que a vida nos fez.

 

 

*