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quinta-feira, 7 de março de 2013

Coração...

 

Quantos corações diferentes… maravilhosos, temerosos, solitários, ou repletos de outras vidas; esquecidos ou inesquecíveis, discretos ou chamativos, preciosos, desprezíveis ou desprezados justa ou injustamente… apaixonados ou sem paixão, muito amados ou sem amor, muito queridos ou sem alguém que os queira, muito cheios de tudo ou completamente vazios, mesmo sem nada… muito duros, ou donos de uma moleza sem fim, muito compreensivos, mas sem serem compreendidos, muito abertos e espontâneos ou fechados e tristes… muito dependentes ou tão independentes, que mal os achamos entre tantas vidas, muito livres ou completamente presos, andam por esse mundo?
A forma de cada um viver, é e será sempre uma estranha forma de vida.
E muito embora às vezes não pareça, dentro de cada vida há sempre um coração.

 

*

 

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

A Praia

 

Trazido pelo vento até mim, vinha o cheiro do mar e o som melodioso das ondas.

A areia era um dourado que se estendia por quilómetros

e os nossos nomes estavam escritos nesse espaço tão dourado pelo brilho do sol quente, que aquecia a alma e tocava a pele com uma graciosidade estrema.

Eram apenas aquelas duas palavras… dois nomes que viviam num coração que nos pertencia, num mundo feito especialmente por nós e para nós, duas metades que formavam uma vida, dois mundos num só mundo, dois seres que viviam e sonhavam… e seguiam juntos no mesmo caminho, com o sentido de não seguirem caminhos diferentes, porque o amor não se separa, como o fazem os grãos da areia da praia que partilhámos.

 

 … E haviam as ondas na praia; as ondas fortes e espantosas que iam e vinham com uma espontaneidade fulgurante e uma energia tão própria delas mesmas.

Os nomes ficaram escritos por nós, naquele espaço dourado pelo sol e beijado pelo mar, até que os nossos caminhos se separaram, e uma onda chegou de mansinho, e como que num sopro de vento ou realidade, limpou a nossa história.

Hoje ainda existe a lembrança do que fomos na praia da vida, mas a história, foi levada para o fundo do oceano. O teu caminho não é mais o mesmo que o meu, as nossas mãos já não se dão como se deram no dia em que escrevemos os nossos nomes lado a lado, num sonho partilhado, e nós, já não pertencemos ao mesmo mundo, e nem o nosso coração de antes tem os nossos nomes gravados, porque o tempo, como em tudo, passou.

 

A praia ainda lá está, e para sempre vai ficar. A vida vai prosseguir por muito e muito tempo… e a nossa história será apenas mais uma, que não será revivida nem contada, porque só nós a sabíamos, e ninguém a revive, porque ninguém é como nós.

 

*

 

Até Amanhã, Se Houver Amanhã

 

Não digas nada… Abraça-me apenas, e salva-me de mim mesma. Não me chames a razão, porque nem sei se razão tenho. Também se puderes, não me faças promessas de que vai ficar tudo bem, porque o amanhã, tu sabes, sabe-me a desconhecido e mesmo assim eu vou ter medo quando ele chegar… como sempre, e para sempre.

Não te afastes agora, por favor; apenas segura-me nos braços, e chama-me de pequenina como sempre me chamaste, daquele jeito que mais ninguém chama, porque ninguém me entende como tu. Se não for pedir muito, passa-me a mão nos cabelos, e beija-me a testa com aquele respeito e distanciamento seguro mas não exagerado, e com a lealdade que sempre encontrei em ti.

 

A vida é tão longa e tão cheia de altos e baixos, que eu não consigo entender nada, ou quase nada, e por isso as minhas perguntas estão escritas em todo o lado das paredes da casa para onde possas olhar, à espera de uma resolução para os dilemas que as fizeram nascer e crescer dentro das minhas loucuras.

Não te espantes ou assustes com a confusão, as roupas espalhadas, e os livros abertos, largados na mesa, a espera que os possa ler um dia. Amanhã talvez; quem sabe?

Não, não digas nada, não precisas de dizer nada… quando me soltares do teu abraço, deixa-me cair para sima da cama; e quando eu fechar os olhos, não te repreendas por nada. Sai de fininho, livre, solto, Soave… como os anjos que é preciso acreditar que temos, para que                                nunca se nos acabem as forças, a coragem, o discernimento. As coisas são como são, e comigo não podem ser diferentes. Eu não odeio o mundo, nem o mundo me odeia. Eu apenas acho que sou o fruto da guerra na qual cresci e me fiz mulher, por entre as batalhas sangrentas das minhas dúvidas e porquês que nunca vi serem respondidos. Mas isso tu já sabes.

 

Não é errado crescer-se assim, nem é, tampouco propriamente mau… é só um pouco confuso. Mas não te preocupes, que está tudo bem; hoje está tudo bem; eu estou bem. Diz-me só que eu sou a tua pequenina e que o sol amanhã vai nascer outra vez, após a noite que tu sabes que eu amo desde que sei quem sou, ou penso que sei quem sou; e desde que sei o que sinto, ou julgo que sinto. Eu preciso acreditar nisso, para que possa finalmente deixar de me combater ferozmente com as minhas incertezas, fraquezas e omissões lamechas.

Vá lá… eu vou fechar os olhos, vou desistir por umas horas, mas vou sonhar. Pode ser que depois acorde para te descrever e escrever o que sonhei, como tantas vezes fiz ao longo das vidas que vivemos, como se fossem uma só… ou não… Também posso não acordar para te contar o outro lado que comanda os meus sonhos e que faz parte de mim, que é tão menos confuso, mas que eu também não conheço. Mas até lá, sorri por nós, Porque como nós não há mais ninguém. E tal como cada pergunta que fiz, que era única, com direito a uma resposta inigualável que ninguém me deu… Cada sorriso teu é diferente, porque leva em si, vás tu para onde fores, um pouco daquilo que contigo eu fui e senti, quando ser e sentir, fazia, ou tinha sentido.

 

*

 

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Ela, Ele e um Talvez

 

Ela caminha em passo rápido e decidido ao longo da rua movimentada por transeuntes e automóveis apressados; no entanto, mesmo havendo tantas pessoas e carros na rua, ela nem repara e vai direito a casa, absorvida nos seus pensamentos complexos - dentro da sua bolha particular.

Aproxima-se da porta, introduz a chave na fechadura, e sorri consigo mesma. Chegou a casa e agora só queria vê-lo e senti-lo ali - ele não está, e talvez nunca chegue a estar; mas porque não sonhar com isso mesmo? Porque não sonhar que ele lhe dá as boas vindas a casa logo que ela chega, beija-a suavemente e segura-a nos braços enquanto lhe passa a mão nos cabelos? Pergunta-se a si própria: Porque não?

Enquanto pousa as coisas nos devidos lugares e se dirige para o quarto, que é o seu porto de abrigo, onde se refugia a imaginá-lo lá, tão seguro ao seu lado, a percorrerem um caminho juntos que ela desejava que lhes pertencesse, mas que até então não pertence, a sua voz profunda e ao mesmo tempo forte e doce, que a deixa tonta, apaixonada e incoerente sempre que o ouve falar, o seu perfume, que ela conhece a marca e o cheiro, o que fariam juntos… as suas conversas, os seus abraços e beijos, os seus silêncios tão cheios de sinais que só eles entenderiam; os problemas que teriam, mas que certamente se predispunham a ultrapassarem juntos… e tanto mais que ela gostaria que ele também quisesse, mas que ele pelos seus motivos, medos e até quem sabe alguma insegurança, não quer.

 

Um ano passou, e ela ama-o com a mesma intensidade; ama-o tanto, que por muito que algum dia queira descrever o que sente a ele ou a outras pessoas, não o conseguirá fazer devidamente, porque ela sabe que não há palavras que cheguem para isso. Há quem saiba desse sentimento que ela nutre por ele - uns, não entendem, outros, ignoram e fingem que ela é fria e tudo lhe passa ao lado, inclusive o amor.

Ela não se importa com as opiniões dos outros acerca de si. Ela sabe que o que sente por ele é verdadeiro, e isso basta-lhe.

Ela também sabe e reconhece que ele sabe do que ela sente, mas prefere ignorar, ou apenas fingir que nada é assim. Profere-lhe sempre que ela toca no assunto de o amar de uma forma desmedida e com todo o seu ser, as mesmas palavras: -- O nosso tempo já passou. O que tinha de ser, se nunca foi, já não vai ser, muito simplesmente, porque não dá… o melhor é esqueceres; eu gosto de ti, mas… somos apenas amigos…

Ela sabe que ele diz aquilo, e que ele sente aquilo que diz. Mas talvez ele também a ame. Não com a mesma intensidade, mas ele gosta dela. É um gostar sincero e verdadeiro, muito embora seja muito menos intenso do que aquilo que ela sente por ele. Enquanto se senta na beira da cama, vai pensando nele, e naquilo tudo que ela lhe gostaria de dar e dizer… que atitude tomar, para poder fazer com que ele entenda que ela quer lutar por ele, mas tem algum medo de que essa luta seja o términos do pouquinho que ainda os liga. Pensa também no que será que ele anda a fazer, se está feliz, se se sente realizado na sua vida pessoal e profissional agora, se ele alguma vez no seu dia pensa nela por um momento que seja como ela pensa nele. Será que ele precisa de alguma coisa? Será que ele está triste ou a sorrir com aquele sorriso que ela adora e que a faz sorrir também? Será que ele está em casa ou foi sair com amigos?

Será que todas as suas faltas de tempo para ela, são as mesmas faltas de tempo para outras pessoas?

(...)

 

Um longo ano passou desde que se conheceram. A distância que os separa, impediu e ainda hoje impede a história deles de se tornar algo possível e real. Para ela, ele não é a razão da sua vida, porque ele é todo o seu viver.

Para ele, ela é uma amiga de quem ele gosta muito, e que ele apoia incessantemente, ajuda de forma dedicada sempre que pode e sempre que preciso for.

Para ela, ele é e será sempre o grande amor da sua vida.

Para ele, ela é alguém que como ele disse um dia, sabe que pode confiar, e que a ela, ele pode contar tudo, mesmo achando que ela é uma tola, que não sabe bem o que é amar, e está a confundir tudo o que sente - não a censura por isso, mas por precaução, mantém-se um pouco a defesa, e conserva uma certa distância. Ele não a quer magoar. A última coisa que ele quer é que ela sofra e ela sabe disso. Mas ela sofre com tudo o que os separa, e com o afastamento que surgiu algum tempo depois de a vida os ter colocado no caminho um do outro.

No entanto, o que os separa, não faz com que o sentimento dela por ele se acabe, e ela possa assim colocá-lo num patamar de amizade igual ao que ele a coloca.

Quem sabe um dia, ela o possa abraçar e fazer com que ele acredite que ela sente cada palavra que lhe diz. Talvez quem sabe nesse dia, ele também possa entender que se ela errou, não foi com qualquer intenção de o magoar. Ela vai sempre esperar que um dia ele se dê conta de que a ausência dele a faz chorar e a faz sentir-se incompleta, porque ela sente saudade, e tem medo de o perder a ele e tudo o que ainda lhes resta, definitivamente

(...)

 

Ela deita-se em sima da cama, abraça a almofada e adormece a pensar nele. Antes de cair no inconsciente e mergulhar no mar dos sonhos, chama baixinho o nome que tanto lhe significa. Ela já sabe que quando acordar, vai olhar e tocar as fotos dele, guardadas cuidadosamente dentro do diário onde ela lhe escreve as cartas que espera que ele um dia leia, e onde estão também as coisas que partilharam naquele tempo que ele lhe diz que passou, mas que ela tem a esperança que volte, mostrando-lhes que pode haver um amanhã para eles.

(...)

 

               *Ela e ele, um dia talvez possam ser um só…*

 

*