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sábado, 18 de abril de 2015

Durante a Noite


Durante a noite, os sós, ficam sempre mais sós.
Deve ser isso que os conforta. É por isso que não se afligem.
Porque para eles, estar só não é estar durante a noite com a solidão.
Para eles estar só, é não poder estar à hora que lhes apetece, na companhia que mais os compreende, a dividir pensamentos e sentimentos que mais ninguém sabe desvendar e ou entender.

Eles, como eu - à noite, na companhia da solidão.

*

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Apenas Silêncio

 

 

Queria ser silêncio. Tudo o que eu queria e precisava era ser silêncio. Não ser palavras. Não escrever palavras. Não dizer palavras. Ser, apenas, silêncio, só silêncio. É que ser palavras é ser tudo o que nunca quiseste ouvir. É ser as linhas de tudo o que nunca quiseste ler. É ser a complexidade de tudo o que nunca quiseste saber. É ser a razão de todas as coisas que estás a viver, e a sentir, a pensar, a entender. E eu, tu sabes, não suporto ser essas palavras. As que ouves, as que sentes, as que compreendes, as que não compreendes, as que pensas agora. Mesmo que eu já te as tenha dito, mostrado e ou feito sentir, eu não suporto ser essas palavras. Tantas palavras. Eu só queria ser silêncio. Apenas silêncio. Como o silêncio deste abraço que me pedes. Deste abraço que te dou. Deste reencontro que sem palavras diz tudo o que sabemos, tudo o que não sabemos mas pensamos, tudo o que sentimos, sem que seja preciso dizer. Deixa que seja silêncio. Tal como preciso de ser – silêncio. E sê tu a palavra - a única que me podes dizer. Quem sabe a única que ainda espero ouvir:
Shhhhh… Fica…

 

 

*

 

 

quinta-feira, 13 de março de 2014

Moldura de Lembranças

 

Olhas-me, solene, do alto da estante. Pareço-te, quem sabe, pequena à vista; quem sabe se também ao coração. Mas não sei, ninguém sabe; e nem tu, poderás dizer-mo;

porque foste embora e, hoje és só toda uma vida impressa numa fotografia, que me fita impávida, do alto da estante, onde também moram com os livros de capas rijas e austeras, todos os sonhos que tive contigo, que construí ao teu lado, que alimentamos de mãos dadas e, que se desvaneceram quando deixaste de seres quem eras, para passares a ser a fotografia que mantenho o mais perto que suporto, se é que suporto – sei lá.

 

Vejo-te do sofá e perturba-me o teu ar passivo. A moldura onde ainda permaneces desde que te foste, parece uma atmosfera segura e intransponível a todas as incongruências da vida.

ÀS vezes tenho a sensação de que desde que te vi dizeres adeus a tudo, com um ar de quem já não suporta nem mais um segundo de tudo o que nos faz doer e nos aprisiona, o que era efémero na tua existência, transformou-se em permanência em todo o esplendor de ser e acontecer. Pareces mais forte, quando comparativamente a mim, que te vejo do sofá, e ainda me vejo às voltas com as mais simples questões da vida humana, como um todo, ou como apenas uma só pessoa. Mas foi sempre assim, se bem me lembro.

 

Dou por mim a relembrar que construímos sonhos e desenhámos realidades de uns dias para os outros. Fui-me tornando mais eu, mas mais forte dia após dia, porque existias; e até existes – és lembrança, que às vezes é tanto, outras vezes tão pouco.

 

Fazes-me falta e és silêncio; e eu queria saber ler o silêncio, como li nos teus olhos tudo o que te consumia; aquilo que aos poucos te apagava o rubor da face e a fluidez que demonstravas ter nos gestos e nos passos que davas rumo ao futuro que ambicionavas; os mesmos passos que me deram coragem para ser quem sempre quis ser.

E é por tudo isto, que às vezes, nem sei se te odeio, se odeio o motivo por que partiste.

Ou melhor, eu nem te odeio. Amo-te é demasiado, para ainda hoje, depois de tanto tempo, não sentir que faz sentido o motivo por que partiste.

Partiste e é tudo. É tudo, coisa nenhuma! Tudo foi o que se acabou quando me morreste; e nada, foi o que ficou depois de ti, depois de nós.

 

E esta fotografia, a tua, que me fita, é tristeza.

E esta lembrança, de ti, que me resta, é saudade.

E esta solidão, que me faz olhar-te, é medo.

E estas demais linhas que te escrevo, é de tudo o que dissemos, a única marca que ainda abraço e transformo em palavras, diante o teu retrato sem vida, como sem vida ficaram os meus sonhos, os teus passos, os nossos abraços, o teu sorriso, que já não ouço chegar a mim, vindos de um outro lugar desta casa, onde cada dia passa incólume, como incólume passa toda a vida, que me deixaste para que vivesse, mas desde então, só diante o teu silêncio e os teus olhos, que pudesse eu adivinhar o que me diriam, se falacem comigo agora, nem que fosse pela última vez.

 

*

 

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Restos de uma Poetisa, a Louca


Perdi-me nas páginas de um livro nunca lido;
numa angústia surda, refletida em cada linha
de pensamento e realidade.
As prateleiras cheias de memórias, são os quadros
que descrevem no fundo, o que não sou capaz de dizer.
Acabaram-se-me as palavras, os gestos e a coragem.
Fiquei numa história onde ainda espero um final qualquer,
que sem ser por acaso desconheço, como
tantos outros finais pelos quais
anseio.

Não sou o troféu nem a coisa vencida;
ainda que vencida pelo cansaço me redima.
É mais fácil dizer basta que entregar-me ao que desconheço;
é mais fácil abdicar daquilo
que os olhos vislumbram, que daquilo
que só eu sei ser – a louca, talvez…

Sou o alvo dos meus erros, e os meus erros são
marcas das minhas derrotas e vitórias;
enquanto o meu olhar repousa junto da terra – a mesma onde
ainda espero chegar outra vida.
Os meus olhos e os meus braços, cansados e perdidos, procuram
ainda um novo rumo – mas não vislumbro nada…
é como ter um coração feito em peças e,
um jogo perdido, à espera de se acabar.

Há nesta chuva de outono uma calidez perturbante;
e um desfasamento tão frio como o frio que sinto;
e uma ausência tão grande como um corpo morto – o meu
que sem nada ainda procura o
fim de uma história que ainda
sinto ter forças p’ra escrever.

Mas quem sou eu no fim de contas; se
da vida não espero nada, p’ra além de escrever os livros,
nos quais possa viver mesmo depois do adeus;
e poder em fim morrer para o mundo, assim como o mundo há muito que me matou.

Daquela que ainda em mim vive e escreve, restou a poesia.
Daquela que julgo ser… já não sei o que restou.

                    *                  

domingo, 15 de setembro de 2013

Vazio - (Poema ou Desabafo, Tanto Faz)


Estou tão vazia, tão fria,
tão insípida, tão sem cor.

Levaram-me a vida, a alma – se é que a tive;
e levaram-me a crença num amanhã que era p’ra vir, sei lá.

Estou tão vazia, mais amarga,
mais só corpo que outra coisa qualquer.

A vida foi-se-me no tempo de ontem e, o que hoje me resta,
é o resto de um ser sem ser, que tem o meu nome e
a fisionomia, que se apagará,
quando mais nada sobrar
p’ra dizer sobre mim.

                    *                  


28-11-2011. In O Meu Mundo do Avesso.
É uma das exceções poéticas adicionadas a esta coleção, cuja proza é o estilo predominante, contudo, não único.


Flor de Inverno


Era assim que ela me chamava; sempre atenciosa, sempre correta, sempre ao mesmo tempo, tão protetora e atenta.
Eram todos os dias as mesmas três palavras… um doce sentido e, sobre tudo - mais importante que tudo: um doce sentir.
Os dias não me eram dias, se, a caso, viessem sem o que me dizia, sem todo o sentir que punha no que me chamava e eu ouvia, sem resposta, pois, entendê-la era ouvi-la em silêncio, como se ouve o som das estrelas, sempre que a noite nos parece ter algo a dizer.

 - Pela força que tens, pelas lutas que travas, pelas batalhas e guerras que enfrentas; pelos Invernos frios e chuvosos que tu, minha pequena flor, tens passado.

“Flor de inverno”; uma gigante de palmo e meio, que ela via crescer, entre outras flores, a sonhar com outros bosques, outras florestas, outros lugares… e até quem sabe, com outros mundos.
E sempre que eu sonhava, os seus olhos nos meus eram dois pequenos mundos que eu adentrava, curiosa, como quem lê atenta e sedenta por mais saber, as páginas de um livro que mesmo depois de lido, já mais deixa de ser todo um mundo novo, aberto e cheio de outros mundos, a descobrir.

“Flor de Inverno”, assim me chamou por tantos dias… e tantas noites… por entre tantos momentos que se findaram tão logo findou a sua caminhada, e tão logo os seus olhos se fecharam. E desde então, eu deixei de perscrutar ávida por mais descoberta, tal como uma flor rebelde que ela, e só ela sabia de cor, os seus mundos profundos, únicos, que trazia nos olhos;
aqueles olhos que eu amava, e que hoje escrevo em jeito de lembrança, porque escrever, como ela dizia, é, também, uma forma terna de, mais que lembrar, amar.

                    *                  

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Ela

 

Ela é ela, e ser apenas isso basta-lhe.

Ela é simplesmente ela, irreverente, rebelde, aparentemente fria, mas sem que o seja realmente; no entanto isso poucos ou nenhuns o sabem. Ela não se importa que o não saibam, porque ela sobre qualquer coisa, é genuína.

 

Ela sorri, ama a chuva, e a noite é uma das coisas que entre tudo mais a fascina…

Não é que ela não adore o sol, mas ele é aberto, espontâneo e às vezes isso assusta-a; porque –nela, há um toque de fantasia, magia e mistério.

Ela é assim, solitária, pequena, discreta, reservada e insegura. Ela é um poema escrito com versos soltos, é a música que cantou, o livro que leu… as palavras que ao longo da vida escreveu… é um pouco de tudo o que aprendeu. Ela é os dicionários que folheou, as mãos de tanta gente que apertou, é os abraços que distribuiu, é a falta que sente por tudo o que perdeu. Ela é as batalhas que não travou  e que lhe impuseram, é o que fez de si, e o que lhe fizeram. Ela é a vós com a palavra amiga, é a cura para as feridas.

Ela é contadora de histórias, é a imagem refletida no espelho que ninguém observa… é a realidade que existe por trás do pano que é o teatro da vida.

 

Ela é o que não se explica, porque a vida dela não foi criada para se explicar, mas sim, para viver.

Ela é o tempo que sobra, ou quem sabe a falta dele… é o porto de abrigo para quem navega sem conhecer o destino, é o calor reconfortante em meio à tempestade. Ela é talvez aquilo que tanta gente procura, mas nunca encontra; e no entanto, ela está sempre lá, tão visível e única que até se torna invisível, e talvez por isso, ninguém vê.

 

Ela gosta de tocar o impossível, o inatingível é o que a prende, e  por isso ela esconde-se.

É que amar de verdade, fez dela o ser mais magoado de sempre.

Mas ela, mesmo envolta na dor, sonha, acredita, e todos os dias luta e enfrenta corajosamente os seus fantasmas, as suas amarras, e abraça o que ainda tem.

 

Ela é assim. Um ser vivo que sobrevive, com a aparência de quem vive sem saber bem porquê ou para quê.

 

Ela sou eu, só, assim. Um tudo, ou um nada. Mas para sempre, como sempre, aqui!

 

*

 

quinta-feira, 7 de março de 2013

Monologando...

 

Eu quis ser forte, mas não se é forte apenas porque sim.

 

Eu quis chorar, mas engoli corajosamente cada lágrima.

 

Eu quis gritar por ti, mas senti como um nó o grito cravado na minha garganta.

 

Eu quis chamar-te, mas da minha boca, apenas saiu um sussurro inaudível.

 

Eu quis correr, mas faltaram-me as forças, e então deixei-me ficar aqui, parada.

 

Eu quis lutar, mas só me restou ficar no chão com a poeira.

 

Eu quis sorrir, mas a dor de te não ter, não deixou.

 

Eu quis querer, mas viver, não basta para isso.

 

Eu quis amar-te, mas amar-te era perder-nos, e então por te amar, simplesmente, desisti.

 

*