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terça-feira, 17 de outubro de 2017

Desta Margem


Escrevo da margem de mim; lugar
de onde sinto cair a noite, e chegar mais
uma hora, hesitante, como eu.

Aqui o tempo para e recomeça, quando
o céu se arqueia sobre o topo
da montanha à qual me encosto e de onde
conto estrelas, ainda à espera de
ver chegar a minha estrela – azul, livre,
fugaz - tão fugaz como os dez ou cem
versos que ao acaso escrevi, mas sei lá porquê
rasguei e esqueci de vez,
como tanta vez caí no esquecimento de quem sempre
lembrei, com a promessa de ser só mais uma vez – uma última vez.

Nesta margem de mim, de onde escrevo,
a vista para o mar não existe, mas
ainda assim, sinto morrerem ondas que me levavam e
traziam sonhos para partilhar com quem é desertor dos meus abraços,
e morador de lembranças que enterro com as saudades sob esta terra,
sob este chão em que me sento p’ra escrever.

Tenho por companhia a solidão calada e pacífica, com quem partilho uma taça de tanto que não se diz.
Bebemos dos pensamentos, gota a gota,
como se fossem agua gelada de ausência,
ou vento quente de emoção.
Lá longe o tempo chama-me, mas,
atirei o relógio fora, e só deixo esta terra,
se for p’ra ser certeza.

Já não me basta o que me dói,
e eu vejo desta margem um rio de esperanças,
com brumas de vida que o meu coração almeja sentir,
assim como eu desejo sonhar
todos os dias, sem porquês…

*

Ilustração © by   Patrícia Magalhães
Desta Margem


sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Mundo


Escrevo porque sim ou porque não.
A verdade é que nem sei porque o faço. Faço-o e pronto.

Escrevo como quem de mão fechada agarra-se à própria vida,
umas vezes para salvar-se, outras vezes, para salvá-la do silêncio das palavras,
 ou do som da solidão.
Escrevo porque quero, ou porque preciso - tanto faz.
Escrevo por tudo, e por nada,
e por um tudo que é nada, na imensidão do que tanto já existe escrito por aí,
 pelas mãos de quem como eu também escreve, umas vezes por amor,
e outras tantas vezes porque assim tem de ser...

Escrevo como quem tece um pano que envolve a alma,
ou como quem fia o fio que me prende ao sonho.
E por vezes nem sei se é sonho o que me faz escrever,
ou se é o tanto de tudo o que escrevo que me faz sonhar.

Só sei que escrevo sempre que a razão me aprisiona
às palavras e ao imenso que é o mundo – o mesmo mundo que me chama só p’ra dizer::

Descobre-me…

*


Ilustração © by   Patrícia Magalhães
Mundo



quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Cansaço

Ilustração: © by   Patrícia Magalhães
Cansaço


Adormeço nos braços de um cansaço triste,
embalada pela angústia, atormentada pelo desejo.

Se me caísse no colo um sonho, e nos lábios um beijo, talvez
o medo que tenho fosse companhia,
e não o guardião do coração que em mim trago.

Não há flores no jardim diante à janela,
e a chuva cai insípida sobre o mundo.
Só o cheiro a terra molhada lembra-me o que já fui,
e as canções que cantei, os sonhos que sonhei, e,
um pouco de tudo o que senti…

Acabam-se as palavras e os riscos.
Não há espaço p'ra mais lágrimas e papel gasto em vão.
Só quero adormecer e sentir que dormindo
vivo mais um pouco, e que num sonho,
um beijo é a certeza de que viver não foi,
até hoje, em vão...

*


sexta-feira, 3 de julho de 2015

Inconstância


Perdi as esperanças quando o sol se pôs e,
eu, que já não olho a lua como antes...

Sinto-me só, tão só como a noite.
E já não há porto seguro para o aconchego,
porque só o sonho é o que me faz continuar, mas nem sei por onde...
Sigo sem bússola, com a alma mais perdida que o olhar pousado
sobre aquilo que não sei escrever.
Talvez porque a dor seja constância, e a inconstância dos momentos,
seja o pouco que me é tanto - tanto como o medo que tenho de ficar perdida
onde não há quem me veja, não há quem me prometa que
o sol nasce para mim também, mas só
amanhã,

se o dia nascer, nos braços de um sentimento qualquer...


                    *                  

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Asas

 

Não me cortes as asas, que eu quero ver de perto o

arco-íris.

Da minha janela, tu sabes,

tudo é menos colorido,

e eu quero ser livre. Voar até ao limite do sonho,

e poder bater asas, sem medo de me encontrar nos olhos dos outros,

e perder-me do meu coração.

 

Como uma águia livre e solta,

uma rima bonita mas sem rima,

na qual escrevo o rumo que sigo,

sempre que sigo o sonho de ser tão livre para voar.

 

Deixa que me batam as asas enquanto houver coragem.

É que a queda é sempre tão mais profunda e escura que as noites,

e eu quero tocar o limite entre o céu e o sonho - lá,

onde o sol tem o mesmo calor das emoções.

 

*

 

 

sexta-feira, 20 de março de 2015

Com Poemas Feitos de Vento

 

Com poemas feitos de vento,
parti.

Nas malas feitas de nada
levei tão somente o que era meu: palavras,
só palavras,
e restos de coisas que um dia foram sonhos – tantos sonhos, e estilhaços…

Estilhaços de uma esperança que já me fizera voar.

Ah, e voei. Tão alto como as nuvens,
tão livre como o ar, tão solta quanto pude ser…

E fui – sempre mais eu.
Como só eu soube ser: a coragem de quem voa
sem medo de pousar numa nuvem,
e tocar o chão, sempre que o coração precisou de adormecer.

E adormeci, com os meus pensamentos livres, ao vento.
Tão livres como os desejos,
e como o luar que me fez companhia pelas madrugadas que

passei a escrever palavras e
reencontros sucessivos entre o meu pensamento,
o pulsar inquieto que me bate no peito, e a minha solidão.

 

*

 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Unicamente um Poema

 

 

Há um rio entre nós chamado tempo.
E quanto tempo havemos de nos esperar?
Já não somos pergunta, nem certeza,
nem tão pouco qualquer coisa a dizer.
Dizemo-nos de tudo.
Segredos não nos cabem, porque o segredo somos nós.

Há um mundo entre nós chamado miragem.
Ainda olhamos nem sei para onde,
nem sei porquê.
Não nos queremos, não nos largamos,
e por vezes só o que nos dói
é não saber tudo o que existe para lá do muro
que a vida nos impôs.

Não saltamos o muro e
já nem temos mãos para nos darmos.
Há muito que este copo está vazio e
que a vida resvalou para um outro outono sem sonhos,
flores e só folhas caídas,
como os restos de tudo o que nos aconteceu.

E foi assim que nos acontecemos…
Sei que não te lembras. Sei que não me lembro.
E por isso, agora é só agora.
Tal como um verso retido numa única linha,
tal como as linhas que espero um dia
ninguém as possa entender, como nem eu,
nem tu, que depois de nós,
não nos sabemos procurar.

Não é como procurarmos uma casa, ou
um lago de águas claras onde mergulhar.
Não é como ler um livro imenso, na busca
de um final tão inserto e tão fugaz.
Não é como qualquer coisa que se possa escrever.
Não é como qualquer coisa que se possa esperar.

É tão somente como tem de ser.

Único.

 

*

 

 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Utopia - Um Sonho de Natal

 

 

Esta noite,
não há pinheiros lá fora nem cai a neve.
Só o crepitar das chamas na lareira diz-me que é natal.

E eu sei lá que dizer do natal.

Mataram-no!

Encheram de presentes o espaço reservado para o amor,
e usaram como desculpa a paz que anseiam no mundo.
Só a anseiam no natal, como se
nos outros dias o mundo não fosse mundo, e
a paz não estivesse em falta, e a fome não fosse p’ra muitos
a primeira e a última ceia.

Mas, é natal, dizem momentaneamente solidários, por aí.

Não sei… Não tenho presentes sob o pinheiro.
É que nem pinheiro tenho – não me importa.

Tenho um tronco a queimar na lareira e a esperança de ver acenderem-se
estrelas reluzentes, e ouvir por muito tempo
o bater do coração de quem amo.

Podia amar toda a gente, mas não posso.

Amo os que posso e rogo que eles façam o mesmo.
Como uma corrente que se propaga,
como um tipo de utopia que sei: não se transforma na realidade verdadeira
a que chamam de natal.

É natal, esta noite.
Não há neve nem pinheiros la fora
mas faz frio.
O mesmo frio de qualquer outra noite.
E na lareira, crepitam as mesmas chamas
que crepitam noutras noites, só que sem nome e sem sonho,
como o sonho de ver acontecer o verdadeiro tempo de natal…

 

*

 

 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Temo, um dia

 

 

Temo, um dia,

que o coração deixe de ser criança,

e que os sonhos se acabem, e a esperança se finde,

e os motivos para sorrir deixem de acontecer.

 

Temo, um dia,

que o coração se torne adulto, e

tudo o que eu adoro, deixe de adorar, e

tudo o que eu sinto, deixe de sentir, e

tudo o que me faz feliz, me faça chorar, e

tudo o que me faz querer ficar, se torne em motivo p'ra partir.

 

Temo, um dia, que o coração se apequene…

deixe espaço no peito,

guarde demasiados restos do que podia ter sido, e

não acredite mais no que pode vir a ser.

 

Temo, um dia, que eu,

tão crescida, deixe de ser criança.

É que ser criança é ser a simplicidade de viver.

E ser adulto é muitas vezes a desculpa

para já não sonhar.

 

*

 

“Lá, dos tempos em que só escrevia para mim, e para mais ninguém…”