Esta noite,
não há pinheiros lá fora nem cai a neve.
Só o crepitar das chamas na lareira diz-me que é natal.
E eu sei lá que dizer do natal.
Mataram-no!
Encheram de presentes o espaço reservado para o amor,
e usaram como desculpa a paz que anseiam no mundo.
Só a anseiam no natal, como se
nos outros dias o mundo não fosse mundo, e
a paz não estivesse em falta, e a fome não fosse p’ra muitos
a primeira e a última ceia.
Mas, é natal, dizem momentaneamente solidários, por aí.
Não sei… Não tenho presentes sob o pinheiro.
É que nem pinheiro tenho – não me importa.
Tenho um tronco a queimar na lareira e a esperança de ver
acenderem-se
estrelas reluzentes, e ouvir por muito tempo
o bater do coração de quem amo.
Podia amar toda a gente, mas não posso.
Amo os que posso e rogo que eles façam o mesmo.
Como uma corrente que se propaga,
como um tipo de utopia que sei: não se transforma na realidade verdadeira
a que chamam de natal.
É natal, esta noite.
Não há neve nem pinheiros la fora
mas faz frio.
O mesmo frio de qualquer outra noite.
E na lareira, crepitam as mesmas chamas
que crepitam noutras noites, só que sem nome e sem sonho,
como o sonho de ver acontecer o verdadeiro tempo de natal…
“Personagens da Solidão”, foi e é uma crónica literária, realizada para a disciplina
de Português.
Sentada à mesa do canto da biblioteca, encaro as lombadas
dos imensos livros. Tudo é silêncio à minha volta. Estou só com os meus
pensamentos e um punhado de palavras prestes a fugirem-me da imaginação. Olho a
estante à minha esquerda, repleta de títulos de obras encadernadas em capas
marcadas pelos anos. Salta-me a vista, inesperadamente, um cavaleiro fantástico
que passa por uma bela dama de vestido e chapéu a condizer. Cumprimentam-se. A
sena, como num filme transposto para a realidade, desenrola-se diante mim. De
repente, atempadamente, como aqueles, mais personagens abandonam os livros.
Vejo-os, mas, nenhum deles parece ver-me. Como que a espiá-los permaneço ali,
torcendo para que não partam e sobre tudo, para que ninguém, para além de mim
entre na biblioteca da casa.
Continuando a observá-los, vejo saírem mais personagens
vindas de livros dos mais variados estilos, séculos, épocas e autores. Nada
parece fazer-me sentido. Concentro-me nas suas conversas, nas suas
manifestações de reencontro. E eis que dou por mim a percebê-los. Precisam-se. Fartaram-se
da solidão de cada mundo impresso nas páginas dos seus livros. Cansaram-se de
não se sentirem acompanhados por quem não os lê. Cansaram-se da solidão e da
sisudez da biblioteca e saíam cá para fora a fim de se procurarem e de se
encontrarem para além das páginas dos seus livros, onde nascem e findam para cada
um dos seus leitores ou, onde permanecem invisíveis e sós para quem deles não quis,
nem quer saber.
Há um velho ancião saído de um livro que me nota.
Aproxima-se de mim e sussurra-me: «Talvez agora não nos esqueças. Mas há quem
nos esquece e assim permanecemos sós, uns com os outros, nos respetivos livros,
mas sem quem nos queira ler…» Compreendo-o e, como não o compreender? Aceno
afirmativamente e silenciosamente com a cabeça, e ele continua: «Assim segue o
mundo… A solidão é uma besta. Tanto pode ser escolha como imposição. Ou se
escolhe ficar só, ou se escolhe fugir dessa realidade vazia que é estar
sozinho. Ou então, impõem-nos ficarmos sós, como é o caso de todas estas
personagens que vês. Quando chegar à hora, voltamos para os livros e ficamos
sós, até que chegue, se chegar, o próximo leitor. Quem sabe…»
Vira-me as costas e como os outros, parte. Da última
prateleira ouço-o ainda dizer: «Se deixarmos, a solidão não parte…» Entendo-o
e, detenho ca pra mim que ainda nos havemos de encontrar, nem que seja pelo
motivo de não ficarmos demasiado sós, como ficamos por tanta vez…